Mesmo em hospitais com prontuário eletrônico amplamente consolidado, alguns processos seguem desafiando a padronização e a integração da informação clínica. O registro anestésico é um dos exemplos mais complexos.

Pela quantidade de variáveis envolvidas, pela necessidade de documentar eventos ao longo de todo o período perioperatório e pelas exigências regulatórias específicas da especialidade, a anestesiologia ocupa uma posição estratégica dentro da governança hospitalar.

No Hospital Mãe de Deus, em Porto Alegre, o tema ganhou protagonismo dentro de um movimento mais amplo de amadurecimento da governança clínica e da organização da informação assistencial. Referência em alta complexidade no Sul do país, a instituição chega a 2026 entre as principais instituições no ranking World’s Best Hospitals, da revista Newsweek, além de manter acreditação internacional da Joint Commission International.

Documentação anestésica deixa de ser operacional

Embora o prontuário eletrônico já estivesse amplamente integrado à rotina assistencial, a documentação anestésica ainda apresentava desafios relacionados à rastreabilidade, padronização e interoperabilidade com outros sistemas clínicos.

O assunto passou a ser tratado de forma mais estratégica, especialmente durante o processo de reacreditação internacional, quando a consistência da informação clínica se torna ainda mais relevante para auditorias e indicadores de qualidade.

Nesse contexto, o hospital passou a enxergar o registro anestésico para além de uma exigência operacional do centro cirúrgico. A documentação passou a ser encarada como um componente importante da segurança assistencial, da conformidade regulatória e da própria gestão da informação clínica.

Segundo Diego Ramires, Head de Inovação, Ensino e Pesquisa do hospital, iniciativas desse tipo surgem primeiro da revisão de processos internos — e não da escolha imediata de uma tecnologia.

“Inovação dentro do hospital não começa escolhendo uma solução. Começa entendendo onde existe uma oportunidade de estruturar melhor o processo assistencial”, afirma. “A tecnologia entra como meio para apoiar essa evolução.”

O registro anestésico foi um dos pontos identificados nesse processo de revisão. O hospital já havia adotado iniciativas digitais anteriormente, mas limitações relacionadas à integração sistêmica, escalabilidade e aderência ao fluxo assistencial se tornaram mais evidentes no dia a dia do centro cirúrgico.

Revisão de processos e integração tecnológica

Com o avanço das discussões sobre qualidade assistencial e acreditação, a instituição decidiu reavaliar o modelo utilizado e buscar uma solução capaz de sustentar a evolução do processo de documentação anestésica dentro da operação hospitalar.

Foi nesse momento que o Hospital Mãe de Deus retomou o diálogo com a SkyMed, empresa especializada em soluções tecnológicas voltadas à anestesia humana e integrante do ecossistema Salux.

A implantação foi conduzida como um projeto institucional multidisciplinar. A liderança médica da anestesiologia participou da definição do modelo de registro clínico, enquanto a área de tecnologia da informação conduziu as integrações necessárias para conectar a solução ao prontuário eletrônico institucional. O objetivo era garantir que os dados anestésicos passassem a compor, de forma estruturada, o conjunto de informações clínicas do paciente.

A coordenação do projeto ficou sob responsabilidade da área de inovação, que também liderou a interlocução com a empresa parceira.

Para Gustavo Ayala, gestor médico do serviço de anestesiologia do hospital, a digitalização estruturada do processo trouxe ganhos importantes para a prática assistencial.

“A anestesia possui exigências muito específicas definidas pelo Conselho Federal de Medicina em relação ao registro das informações clínicas”, explica. “Existem determinações claras sobre o que deve ser documentado na avaliação pré-anestésica, no acompanhamento intraoperatório e no período pós-anestésico.”

Rastreamento de dados e fortalecimento da governança

Na prática, a estruturação digital dessas informações fortalece a consistência documental e amplia a rastreabilidade do cuidado prestado ao paciente — aspecto cada vez mais relevante em auditorias, indicadores assistenciais e processos de acreditação.

Outro ponto valorizado pela instituição durante a implantação foi a flexibilidade da solução. Em vez de um modelo rígido, a plataforma foi parametrizada para refletir o fluxo assistencial do centro cirúrgico e as particularidades da equipe de anestesiologia.

A implementação ocorreu de forma progressiva, com suporte técnico próximo às equipes e acompanhamento contínuo dentro do bloco cirúrgico, permitindo uma incorporação gradual do novo modelo à rotina assistencial.

Com a evolução do projeto, os impactos passaram a ser percebidos em diferentes frentes da operação hospitalar. Informações clínicas mais estruturadas ampliaram a capacidade de rastreabilidade exigida em auditorias e processos de acreditação. Ao mesmo tempo, a integração ao prontuário eletrônico fortaleceu a conexão entre assistência, gestão do centro cirúrgico e processos administrativos.

Para Ramires, o principal aprendizado está na capacidade da tecnologia de apoiar a organização do cuidado de forma mais estratégica.

“Quando estruturamos melhor a informação clínica, fortalecemos a governança do hospital”, afirma. “A tecnologia deixa de ser apenas uma ferramenta e passa a ser um meio para organizar processos assistenciais que são críticos para a qualidade do cuidado.”

Próximo passo: assinatura digital integrada

Agora, o hospital avança para uma nova etapa do projeto: a adoção da assinatura digital integrada, movimento que permitirá eliminar impressões residuais associadas ao registro anestésico e consolidar o modelo totalmente digital dentro do centro cirúrgico.

Mais do que uma mudança operacional, a iniciativa reflete uma transformação mais ampla na forma como hospitais vêm tratando a gestão da informação clínica.

No caso do Hospital Mãe de Deus, o registro anestésico deixa de ocupar um papel periférico na operação e passa a integrar, de forma estruturada, o modelo de governança clínica da instituição — conectando assistência, rastreabilidade e conformidade regulatória em um mesmo fluxo de cuidado.

A estruturação digital do registro anestésico é apenas um dos exemplos de como tecnologia e governança vêm transformando a operação hospitalar. No Congresso de Tecnologia e Inovação para a Saúde Digital (CTISD), durante a Hospitalar 2026, lideranças do setor discutirão os próximos passos dessa evolução. Participe!