Dilma quer facilitar entrada de médicos estrangeiros no país

Por Fernando Exman | De Brasília

Decidida a fazer do aumento da oferta e qualidade dos serviços públicos uma das marcas de seu governo, a presidente Dilma Rousseff quer facilitar a entrada de médicos estrangeiros no Brasil. A alteração das regras de homologação de diplomas de médicos formados no exterior está em discussão entre a Casa Civil da Presidência da República e o Ministério da Saúde, que ainda debatem se a medida será adotada por meio da edição de um decreto presidencial ou outro meio legal.

A ideia do governo federal é tentar reduzir a disparidade na oferta de serviços de saúde entre os Estados e cativar a parcela da população que tem deixado a pobreza rumo à classe média. Atualmente, a homologação dos diplomas estrangeiros é feita por meio do Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos. (Revalida). O teste é composto por provas objetivas, discursivas e práticas. Antes, era feito de forma independente por universidades públicas, que utilizavam metodologias próprias e acabavam muitas vezes prolongando o trâmite.

Na quinta-feira, em meio à reunião de cúpula dos Brics realizada em Nova Déli, a presidente expressou sua preocupação com o tema. “Tem de ampliar o número de médicos atendendo no Brasil. Temos um dos menores números de médicos per capita”, disse Dilma aos jornalistas. “Temos uma das mais baixas taxas. O Brasil vai ter de fazer um esforço nesse sentido, o Brasil tem de ter mais médicos.”

Segundo ela, o Brasil terá de compatibilizar a necessidade de aumentar investimentos com políticas que atendam às demandas da população por mais médicos e pronto atendimento na saúde. “Se for ver o que a população reclama vai ver duas coisas: reclama de falta de médico e de atendimento”, destacou a presidente. “O que a população quer? Um médico na hora que ela precisar e que tenha pronto atendimento.”

A categoria médica, entretanto, critica o novo plano do governo. Argumenta que a carência do país não é de médicos, mas de uma política do governo que incentive os profissionais a se mudarem para locais onde o mercado de trabalho não é atrativo. E assegura que adotará as medidas jurídicas e políticas necessárias para tentar barrar o plano do Executivo.

“Desde o descobrimento do Brasil não temos políticas de longo prazo. Abrir a porteira para aumentar o número de médicos de uma hora para a outra é uma aposta de política de curto prazo”, argumentou o terceiro vice-presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM), Aloísio Tibiriçá Miranda. “Achamos que é uma aposta errada. Importar médicos não vai resolver o problema. Afirmamos que temos médicos suficientes. O que temos é uma distorção por causa do mercado.”

Divulgado pelo CFM e pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo no fim do ano passado, o estudo “Demografia Médica no Brasil” mostra que, em termos absolutos, o Brasil é o quinto país do mundo com o maior número de médicos. São ao todo 371.788 profissionais, 4,05% da população médica mundial e 19,2% dos médicos das Américas. Está atrás apenas da China (1.905.436), Estados Unidos (793.648), Índia (640.801) e Rússia (614.183).

Na relação médicos/ mil habitantes, porém, apenas alguns Estados brasileiros estão bem posicionados no cenário internacional. A taxa nacional é de 1,95, índice igual ao da Coreia do Sul e melhor que os de países africanos, asiáticos, Chile (1,09) e Turquia (1,64). Por outro lado, é inferior à taxa de diversos países europeus e latino-americanos, como Cuba (6,39), Grécia (6,04), Áustria (4,77), Rússia (4,31), Uruguai (3,73), Alemanha (3,64), França (3,28), Argentina (3,16), México (2,89), Estados Unidos (2,67), entre outros. A China tem 1,41 médico por mil habitantes, enquanto Índia possui 0,60 e África do Sul 0,77.

Autoridades do governo brasileiro avaliam que o problema está na distribuição dos médicos pelo território nacional, tese que pode ser verificada no levantamento feito pelo CFM e o conselho paulista. Entre os Estados, São Paulo é o que tem mais médicos, com 106.536 profissionais. Em seguida estão Rio de Janeiro (57.175), Minas Gerais (38.680) e Rio Grande do Sul (24.716). Por outro lado, Roraima conta apenas com 596 médicos, enquanto Amapá e o Acre têm 643 e 755, respectivamente.

A taxa estadual de médicos por mil habitantes também evidencia a concentração da população médica nos Estados mais desenvolvidos. O índice é de 4,02 no Distrito Federal, 3,57 no Rio de Janeiro e 2,58 em São Paulo. No Maranhão, é de 0,68, fica em 0,83 no Pará, 0,96 no Amapá e 1,0 no Piauí.