Se não bastassem os problemas e dificuldades no campo da produção inicial do conhecimento, retratados na postagem anterior, veja só o que enfrentamos a partir disto.
Diversos trabalhos demonstram o óbvio: que a exposição a atividades educativas pode alterar o padrão de conduta dos indivíduos expostos. Não é diferente quando os indivíduos expostos são médicos! Em um estudo clássico, avaliaram colegas imediatamente antes e 6 meses após participação em três diferentes eventos patrocinados por empresas distintas – cada curso representando medicação anti-hipertensiva específica – comparando o padrão de prescrição. Cada um dos eventos aumentava a prescrição da substância a que se relacionava, desfavorecendo a concorrência (Bowman e Pearle, 1988). Em outro clássico, avaliou-se o impacto de oferecer uma viagem com tudo pago para evento de indústria farmacêutica, em local turístico popular e sobre droga de uso estritamente hospitalar. Monitoraram o padrão de prescrição local por meses antes e após a iniciativa, escancarando uma influência que apareceu nos números com significância estatística, mas que foi negada na percepção de cada médico entrevistado individualmente (Orlowski e Wateska, 1992).
Já em avaliação de autores de diretrizes clínicas sobre doenças comuns em adultos, apoiadas por sociedades norte-americanas e europeias e publicadas entre 1991 e 1999, oitenta e sete por cento deles apresentava alguma relação com a indústria, sendo que 38% era empregado ou consultor (Choudhry et al., 2002). Alguém duvida que estas estratégias em cadeia (relacionadas a tudo que foi discutido na seção anterior, mais ser a indústria uma fonte forte de educação médica) podem ser potencialmente poderosas? Diversos manuais ou diretrizes clínicas vêm sob suspeição, sendo questionados até mesmo em publicações leigas, como ocorreu com o DSM – Manual de Estatísticas e Diagnósticos da American Psychiatric Association (Garcia, 2012) e, bem recentemente, com diretrizes para o tratamento da dislipidemia. A situação já está tão crítica que autores permitem-se publicar com títulos do tipo Por que não podemos confiar em guidelines? (Lenzer, 2013).
Em 2005, Joel R. Lexchin, da York University e da University of Toronto, publicou artigo provocativo já no título, onde questionava se o C de CME é de educação médica Continuada ou Comercial (Lexchin e Cassels, 2005). Após trazer dados de que a indústria investia anualmente 700 milhões de dólares nisto, disse: sejamos transparentes acerca de EMC e dinheiro. Existe uma grande diferença entre vender estandes em eventos médicos e deixar que estes eventos sejam financiados diretamente. A primeira coisa equivale a periódicos médicos venderem espaços publicitários, enquanto a segunda equivale a empresas coproduzindo suplementos de jornais e revistas. Mais recentemente, Lexchin praticamente repetiu o título (Lexchin e Vitry, 2012), mas foi além, oferecendo detalhes e exemplos de como alguns profissionais e representantes da indústria trocam mensagens eram para ser secretas, mas foram interceptadas e constroem, em absoluta parceria, a programação de eventos onde prometem independência.
No controle direto ou indireto de tudo isto costumavam estar associações médicas apenas, mas modernamente isso se tornou uma questão relevante para praticamente todas as profissões da saúde.
Leitura obrigatória (Rothman et al., 2009)
Professional
Medical Associations and Their Relationships With Industry
A Proposal for Controlling Conflict of Interest