A saúde brasileira enfrenta um paradoxo atualmente, em que nunca tivemos tanta capacidade tecnológica para ampliar o acesso, melhorar os resultados clínicos e tornar o sistema mais eficiente, mas ao mesmo tempo, nunca estivemos tão pressionados pelo aumento dos custos, pelo envelhecimento da população e pela crescente demanda por serviços.
A pergunta que precisa ser feita já não é se a Saúde Digital é importante, mas quanto custará ao Brasil não acelerar sua transformação digital?
O debate sobre inovação em saúde ainda costuma ser conduzido como se a digitalização fosse um projeto de tecnologia. Não é. É uma agenda econômica, social e estratégica para a sustentabilidade do país.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), os sistemas de saúde enfrentam desafios crescentes para atender populações mais longevas e com maior prevalência de doenças crônicas.
A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) estima que em diversos países, entre 20% e 30% dos gastos em saúde decorrem de desperdícios, ineficiências administrativas, exames duplicados e falhas na coordenação do cuidado. Em outras palavras, uma parcela significativa dos recursos consumidos pelo setor não gera valor para o paciente.
O Brasil conhece bem essa realidade. Filas, fragmentação das informações clínicas, baixa interoperabilidade entre sistemas, repetição de exames, dificuldade de acesso a especialistas e modelos de remuneração ainda excessivamente baseados em volume compõem um cenário incompatível com os desafios do século XXI.
A boa notícia é que as soluções já existem
A telemedicina demonstrou, durante e após a pandemia, que a distância deixou de ser um obstáculo para o cuidado. Hoje, porém, ela representa apenas uma pequena parte da transformação.
O verdadeiro salto está na construção de um ecossistema digital integrado, com prontuários eletrônicos interoperáveis, monitoramento remoto de pacientes, dispositivos conectados, plataformas de coordenação do cuidado, análise de dados em larga escala e modelos preditivos formando uma infraestrutura capaz de mudar profundamente a forma como produzimos saúde.
Nesse contexto, a Inteligência Artificial Generativa inaugura uma nova etapa. Se até pouco tempo, a IA era utilizada principalmente para análise de imagens ou apoio diagnóstico, os modelos generativos ampliam esse horizonte.
Eles já apoiam médicos na documentação clínica, resumem prontuários complexos, organizam informações dispersas, auxiliam na tomada de decisão baseada em evidências e reduzem significativamente a carga administrativa que hoje consome horas preciosas dos profissionais de saúde.
O impacto potencial é enorme
A IA poderá representar centenas de bilhões de dólares em ganhos anuais de produtividade para o setor saúde na próxima década. Mais importante do que reduzir custos, ela permitirá que médicos, enfermeiros e demais profissionais dediquem mais tempo ao que nenhuma tecnologia substituirá: o relacionamento humano e o cuidado ao paciente.
Mas inteligência artificial sem dados integrados produz apenas inteligência limitada. Por isso, a interoperabilidade talvez seja o maior desafio estrutural da saúde digital brasileira.
Não faz sentido que um cidadão seja obrigado a repetir sua história clínica a cada consulta, refazer exames porque sistemas não se comunicam ou enfrentar atrasos decorrentes da fragmentação das informações.
Em praticamente todos os demais setores da economia, dados circulam com rapidez, segurança e padronização. Na saúde, ainda convivemos com ilhas de informação. Construir uma infraestrutura nacional de interoperabilidade deixou de ser uma agenda tecnológica e se tornou uma política pública essencial.
O SUS tem uma oportunidade histórica de liderar
Poucos países dispõem de um sistema público universal com a abrangência do Sistema Único de Saúde (SUS), em que quando combinado com infraestrutura digital, identificação segura, prontuário eletrônico interoperável e análise inteligente de dados, o SUS pode se tornar uma das maiores plataformas de gestão populacional em saúde do mundo.
Isso significa antecipar riscos, fortalecer a atenção primária, monitorar doenças crônicas, otimizar campanhas de vacinação, responder mais rapidamente a emergências sanitárias e apoiar decisões baseadas em evidências em todos os níveis de gestão.
E o setor suplementar também tem papel decisivo com as operadoras, hospitais, clínicas, laboratórios, indústria e startups já investindo fortemente em transformação digital. O desafio agora não é apenas inovar individualmente, mas construir um ambiente colaborativo, baseado em padrões comuns, interoperabilidade, segurança cibernética e compartilhamento responsável de informações.
Os países que lideram essa transformação entenderam que saúde digital não é um tema apenas de TI, mas uma política de Estado. Estônia, Dinamarca, Finlândia, Israel e Reino Unido demonstram que ecossistemas digitais integrados produzem ganhos simultâneos em qualidade assistencial, eficiência operacional e sustentabilidade financeira.
O Brasil reúne condições para integrar esse grupo, porque temos capacidade técnica, centros de excelência, uma comunidade vibrante de healthtechs, profissionais altamente qualificados e um ambiente regulatório que evoluiu de forma significativa nos últimos anos. O que ainda nos falta é acelerar a execução e consolidar uma visão nacional de longo prazo.
Naturalmente, essa transformação exige responsabilidade e aconfiança será o principal ativo da saúde digital no país. Isso significa proteger dados pessoais, fortalecer a segurança cibernética, garantir transparência no uso da inteligência artificial e preservar a autonomia dos profissionais de saúde. A tecnologia deve ampliar a capacidade humana de decidir, mas nunca substituí-la.
Estamos diante de uma oportunidade comparável à informatização do sistema financeiro ou à digitalização das telecomunicações, em que os países que avançarem primeiro construirão sistemas mais eficientes, atrairão investimentos, desenvolverão inovação e oferecerão melhor cuidado à população. O Brasil precisa escolher qual papel deseja desempenhar nessa nova realidade.
Podemos continuar administrando um modelo cada vez mais pressionado por custos crescentes, demanda crescente e produtividade limitada, ou podemos utilizar a saúde digital para construir um sistema mais integrado, preventivo, inteligente e sustentável.
A tecnologia já está disponível e o conhecimento também, mas o que definirá nosso futuro não será a capacidade de inovar, mas a coragem de transformar.