Replicar uma coluna, um crânio, uma orelha, vasos e veias de um coração, um feto e por aí vai. São inúmeras as possibilidades que a impressão 3D tem gerado para a medicina. Engenheiro mecânico do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Biofabricação, André Jardini, está envolvido diretamente neste processo, mais precisamente, em encontrar e desenvolver materiais que possam reproduzir partes do corpo humano ou até mesmo substituí-las, sendo totalmente biocompatíveis. Todo esse trabalho é feito por um conjunto de laboratórios associados ao Instituto de Biofabricação (Biofabris), ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia, sediado na Faculdade de Engenharia Química da Unicamp.

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Como nasceu a impressão 3D e a Biofabris nesse contexto?

O termo correto para a impressão 3D seria manufatura aditiva. É uma tecnologia que nasce da engenharia mecânica para construção de peças aeroespaciais, desde a paleontologia, replicando fósseis, como estruturas moleculares e químicas. A ideia é materializar qualquer estrutura a partir do desenho de um computador. Para isso, usa-materiais industriais como resinas, cerâmicos, metais, polímeros, policarbonatos, entre muitos outros. Na Saúde, o uso começa por biomodelos, ou seja, réplicas anatômicas com o objetivo de auxiliar médicos a planejarem procedimentos cirúrgicos. Tudo a partir de imagens provenientes de ultrassom 3D, ressonância magnética, que transferidas para softwares de tratamento de imagens médicas (Invesalius), são segmentadas em tecido mole e tecido duro (osso). Isso acontece desde a década de 90, com o pioneirismo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Com a ampliação dos materiais para a impressão, a exemplo do titânio, que é biocompatível, passou a ser possível fabricar, no Brasil, próteses via impressão 3D e implantá-las no corpo humano (próteses ortopédicas, bucomaxilares, para crânio etc). Já é possível imprimir em 3D réplicas de vasos e veias do coração, assim como réplicas de um feto com suspeita de má formação etc. Trabalhamos direto com o Hospital de Clínicas da Unicamp através de um projeto de Comitê de Ética.

Li, que no mundo, o mercado de impressão em 3D cresce 30% ao ano e ainda há muito espaço para novos projetos. Em que fase o Brasil está em relação a essa tecnologia?

Hoje a impressão 3D está na infância, afinal, nasceu nos anos 90, enquanto a fundição tem quatro mil anos, mas é uma tecnologia que veio para ficar. Somente agora que estamos terminando as fases de estudo com implantes humanos. Já faz três anos e meio desde o primeiro implante craniano que fizemos. O Leandro [26 anos] havia sofrido um acidente de bicicleta e, por isso, teve que fazer uma craniotomia (retalho ósseo removido do crânio para acessar o cérebro). Leandro nos procurou depois de seu corpo ter rejeitado um implante de acrílico, então fizemos o implante de uma prótese de titânio. Depois de três anos, podemos dizer que foi um sucesso o procedimento e ele voltou a ser socialmente ativo.