A atenção domiciliar deixou de ser apenas uma alternativa para liberar leitos hospitalares. Em um cenário marcado pelo envelhecimento da população, aumento das doenças crônicas, pressão por eficiência e busca por modelos mais sustentáveis de cuidado, o home care começa a ocupar uma posição estratégica na agenda da saúde.

Esse foi o tema da conversa com Mariana Borges, ex-coordenadora-geral de Atenção Domiciliar do Ministério da Saúde, em entrevista para o Podcast Hospitalar: Estúdio Saúde Business, gravado durante a Hospitalar 2026.

Ao longo da entrevista, Mariana defendeu que o futuro da assistência passa por uma mudança de lógica: o hospital deve concentrar os casos de maior complexidade e gravidade, enquanto uma parcela crescente dos cuidados pode ser realizada no ambiente domiciliar, com segurança, qualidade e apoio tecnológico.

Na avaliação da especialista, a atenção domiciliar representa um elo fundamental entre hospitais e atenção primária, permitindo que pacientes com necessidade de acompanhamento contínuo recebam assistência fora do ambiente hospitalar, sem perder acesso à equipe multiprofissional e aos recursos necessários para o tratamento.

O tema ganha relevância diante das transformações demográficas e epidemiológicas do país. O aumento da expectativa de vida, o crescimento das doenças crônicas, dos casos de dependência funcional e das condições que exigem acompanhamento prolongado têm ampliado a demanda por modelos assistenciais capazes de oferecer cuidado contínuo sem sobrecarregar hospitais e unidades de urgência.

Home care avança, mas ainda enfrenta desafios estruturais

Durante o episódio, Mariana traça um panorama da evolução da atenção domiciliar no Brasil, desde as primeiras experiências realizadas por municípios até a criação do programa Melhor em Casa, em 2011, iniciativa que estruturou a política nacional de atenção domiciliar no SUS.

Segundo ela, o país vive um momento de expansão do modelo, tanto na saúde pública quanto na suplementar. No entanto, ainda existem desafios importantes para que essa modalidade alcance todo o seu potencial.

Entre os principais gargalos apontados, estão a falta de dados integrados, dificuldades de comunicação entre os diferentes níveis assistenciais, lacunas regulatórias e a necessidade de ampliar o entendimento sobre o papel estratégico da atenção domiciliar dentro das redes de saúde.

A entrevistada também chama atenção para uma discussão que vem ganhando espaço entre especialistas e gestores: a necessidade de revisar modelos assistenciais historicamente adotados pelo setor e fortalecer o protagonismo das famílias e cuidadores no processo de cuidado.

Outro tema abordado foi a integração entre hospitais, atenção primária e equipes de home care. Para Mariana, a comunicação entre esses pontos da rede continua sendo um dos principais fatores para garantir continuidade assistencial e melhores desfechos clínicos.

Tecnologia pode acelerar a transformação do cuidado

A transformação digital também aparece como uma das grandes aliadas da atenção domiciliar.

Ao longo da conversa, Mariana destaca o potencial de ferramentas como telemonitoramento, teleassistência, prontuário eletrônico integrado, dispositivos de acompanhamento remoto e inteligência artificial para ampliar a capacidade de monitoramento dos pacientes e oferecer mais segurança para famílias e equipes de saúde.

Segundo ela, a combinação entre tecnologia e cuidado domiciliar pode ser decisiva para ampliar o acesso, qualificar a assistência e tornar o sistema mais sustentável nos próximos anos.

A especialista também compartilha sua visão sobre como deve ser o cenário da atenção domiciliar em 2036 e quais decisões precisam ser tomadas agora para que o modelo avance de forma consistente. Entre elas estão investimentos em dados, regulação, qualificação profissional, comunicação e incorporação tecnológica.

Ao final da entrevista, Mariana deixa uma provocação para gestores públicos e privados: diante das evidências assistenciais, econômicas e de satisfação dos pacientes, ainda faz sentido enxergar a atenção domiciliar apenas como um serviço complementar?

A entrevista completa está disponível no canal do Portal Saúde Business no YouTube.