A Hospitalar 2026 recebe uma iniciativa que busca ampliar o debate sobre inovação em saúde para além dos laboratórios, equipamentos e soluções tecnológicas tradicionalmente presentes no evento. A ANBIOTEC Brasil levará uma aldeia indígena para dentro da feira, realizada no São Paulo Expo, em São Paulo, até sexta-feira (22).

Com o tema “A Biotecnologia é ancestral: inovação, saberes e acesso à saúde nos territórios”, o projeto pretende conectar empresários, cientistas, executivos, lideranças indígenas e representantes de instituições públicas em uma discussão sobre o diálogo entre conhecimentos tradicionais e biotecnologia contemporânea.

A iniciativa nasceu após visitas de campo realizadas pela presidência da Associação a regiões indígenas do Pará, durante agendas ligadas à COP30 no ano passado. A estrutura ficará localizada na rua E-149, no setor de Diagnóstico e Laboratórios da feira, em formato de oca indígena.

O espaço reunirá as empresas associadas Bioclin, Bioperfectus e TÜV Rheinland Brasil. Também participam, com apoio institucional, as associadas Enzytec, Molecular, Rheabiotech e HSC Global. O Grupo Onmnia e o Instituto Nacional de Cuidados Oncológicos e Humanização (INCOH) também aderiram ao projeto.

A oca será construída com bambus e elementos inspirados no cotidiano de povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos, incluindo simbologias, artesanatos e instrumentos culturais e musicais. Segundo Helena Ruette, arquiteta responsável pelo projeto arquitetônico da ilha de empresas, a proposta vai além da ambientação visual.

“A proposta busca trazer a ancestralidade não como um elemento cenográfico, mas como uma forma de pensar o espaço. A geometria inspirada nas ocas, o uso do bambu e a construção mais artesanal criam um ambiente que resgata a relação humana com a natureza, o coletivo e o tempo”, relaciona.

De acordo com a arquiteta, o processo construtivo também foi pensado para reduzir impacto ambiental e permitir a reutilização dos materiais após o evento. “A montagem foi desenvolvida de forma modular e desmontável, facilitando transporte, remontagem e reutilização das peças em uma segunda vida útil. A ideia é que os materiais possam ser doados e reinseridos em novos usos, prolongando seu ciclo de vida e reduzindo o impacto ambiental da instalação”, diz a arquiteta.

A estrutura em bambu está sendo executada pelo engenheiro Renato da Glória, da Nativa Engenharia. A matéria-prima, composta por mais de 200 bambus de cinco espécies nativas em diferentes formatos, foi doada pelo cacique responsável da Aldeia Guarani Guyra Pepó, em Tapiraí, no interior paulista. Após a feira, os bambus tratados serão devolvidos à comunidade indígena para compor a construção de um Centro Cultural na aldeia.

Segundo Vanessa Silva da Silva, Presidente Executiva da ANBIOTEC Brasil, esta será a 16ª participação consecutiva da entidade na Hospitalar, mas a primeira com uma proposta centrada na integração entre biotecnologia, ancestralidade e territórios tradicionais do Brasil.

O tema, afirma Vanessa, ganha espaço em um momento em que empresas associadas ampliam investimentos em sustentabilidade, rastreabilidade e pesquisas relacionadas à biodiversidade brasileira.

“A biotecnologia sempre teve um papel fundamental dentro dos laboratórios, da indústria e da pesquisa e do desenvolvimento científico. O que estamos propondo neste ano é ampliar esse diálogo, aproximando o setor das realidades vividas nos territórios e das populações que também produzem conhecimento sobre saúde, cuidado e sustentabilidade”, pontua.

Para Marcelo Pataxó, Curador Territorial e Embaixador dos Povos Indígenas da ANBIOTEC Brasil, a aproximação entre ciência laboratorial e conhecimento nativo é estratégica para o desenvolvimento de soluções terapêuticas e diagnósticas de longo prazo.

“Devemos considerar e compreender como inseparáveis esses sistemas, integrando estratégias de fortalecimento das capacidades locais com apoio técnico na formação e organização territorial”, afirma Pataxó.

Segundo ele, esse modelo também influencia a forma como decisões podem ser tomadas no ambiente corporativo e industrial. “Quando apontamos os conhecimentos tradicionais como guia em tomadas de decisão, devemos considerar esse modelo como base para garantir a sustentabilidade física e cultural, envolvendo meio ambiente, organização social, espiritualidade e ancestralidade, integrando seres e saberes”.

A expectativa da ANBIOTEC Brasil é que milhares de pessoas visitem a Oca e os estandes instalados no espaço. No segundo dia da Hospitalar, a estrutura deve concentrar uma das principais ações públicas do projeto, com o cortejo “Caminho da Ancestralidade”, marcado para 12h, com concentração no estande Ilha de Empresas ANBIOTEC.

A programação prevê pronunciamento, cantos e danças conduzidas por representantes indígenas dentro do pavilhão. Em seguida, será realizada a Arena ANBIOTEC Brasil, na Arena Plaza, espaço oficial de conteúdos da Hospitalar.

Entre os convidados previstos estão representantes da ANVISA, da Secretaria de Saúde Indígena (Sesai), vinculada ao Ministério da Saúde, do Projeto Hämy, lideranças indígenas Pataxó e Guajajara, além de especialistas ligados às áreas de ciência, tecnologia e políticas públicas.