Na quarta-feira, 20 de maio, os congressistas da Hospitalar 2026 puderam acompanhar mais uma agenda do Congresso de Tecnologia e Inovação para Saúde Digital (CTISD).
No palco, palestras e painéis sobre oportunidades e desafios da saúde digital, considerando inteligência artificial, proteção de dados e cibersegurança. Na parte da manhã, destaque para a apresentação de Brenna Loufek, sobre governança de IA na Mayo Clinic.
A seguir, confira outros temas em destaque no congresso.
Quem reduz a variabilidade clínica: médicos ou tecnologia?
Essa foi a questão tratada em painel com os CMIOs (Chief Medical Information Officer) dos Top 4 hospitais do Brasil (segundo a Newsweek). Participaram Felipe Cabral (Hospital Moinhos de Vento), Ralf Karbstein (Hospital Alemão Oswaldo Cruz) e Carlos Pedrotti, presidente da Saúde Digital Brasil, sob mediação de Carlos Sacomanni, head de Inovação no Hcor.
Um dos pontos centrais do debate foi o papel dos sistemas de informação em saúde, especialmente os prontuários eletrônicos. Felipe Cabral foi direto ao apontar uma falha estrutural: “A gente não fez uma revisão do processo antes de digitalizar. Simplesmente automatizamos o caos”.
O resultado, segundo os especialistas, é que os prontuários eletrônicos, em vez de aproximar médicos e pacientes, acabaram criando novas barreiras burocráticas. “Pergunte a qualquer gestor médico se ele consegue, para a semana que vem, obter os prontuários de todos os pacientes que sua equipe atendeu nos últimos 90 dias. A resposta, na maioria das vezes, é não”, provocou Carlos Pedrotti.
Ainda assim, são as tecnologias que habilitam a correção da variabilidade. Nesse ponto, um dos desafios do setor de saúde é geracional, sendo a resistência à adoção de novas soluções.
Segundo Ralf Karbstein, os profissionais reconhecem que a tecnologia melhorou aspectos da rotina, mas ainda veem os sistemas como uma dificuldade, especialmente quando se trata de adotar protocolos. “A grande dificuldade é fazer com que eles aceitem essas soluções não apenas como facilitadoras, mas como auxiliares na tomada de decisão clínica”, afirmou.
Saúde Digital: aproximação ou distanciamento?
Carlos Pedrotti fez uma distinção importante entre “saúde digitalizada” e “saúde digital”. “Nos últimos 20 anos, basicamente digitalizamos processos. Não estamos usando medicina digital de verdade. Pegamos um processo de consulta médica e colocamos uma tela na frente — isso não é transformação digital”, argumentou.
Segundo Pedrotti, a telemedicina, quando bem utilizada, tem grande valor logístico: encurta distâncias, reduz filas e diminui o tempo de deslocamento. “Para situações de baixa e média complexidade, isso traz benefícios significativos. O paciente consegue ir mais vezes, há maior adesão ao tratamento, retornos mais frequentes e contato mais próximo com o médico”, destacou.
No entanto, ele alertou que a experiência do paciente ainda não é universalmente positiva. “Temos muitas experiências ruins com a ideia de que a atenção primária deveria ser um ‘gatekeeper’ obrigatório. Você coloca uma barreira que, em vez de facilitar, complica o acesso”.
Inteligência Artificial pode ajudar?
No tópico inteligência artificial, Felipe Cabral destacou que a tecnologia está sendo usada para resolver problemas estruturais dos sistemas. “Com os agentes de IA, estamos conseguindo organizar melhor nossos processos e fazer com que o prontuário eletrônico cumpra seu objetivo original: deixar o profissional mais tempo perto do paciente e menos tempo preenchendo formulários”.
Ele mencionou avanços como a transcrição automática de consultas: “Você pode fazer uma consulta presencial, a IA transcreve e coloca as informações diretamente no prontuário eletrônico. O médico só valida. Acredito que esse é o momento em que vamos conseguir o que tentamos há muitos anos: aproximar o profissional do paciente”.
Segundo Karbstein, a IA também pode ajudar a entender casos que não se encaixam nos protocolos: “O paciente é variável, ele está dentro de uma ciência variável. É esperado que, às vezes, o médico tome uma decisão diferente do protocolo. A IA vai nos ajudar a entender se foi uma decisão exclusivamente do médico, institucional, ou se o paciente apresentava uma alteração que justificava aquela conduta”.
Colaboração médicos e tecnologia
O consenso ao final do debate foi que a redução da variabilidade clínica não será alcançada apenas por médicos ou apenas por tecnologia, mas pela colaboração inteligente entre ambos.
Carlos Sacomanni resumiu: “Temos sistemas de informação que precisam permitir acesso organizado aos dados e médicos disponíveis para utilizar esses sistemas. Precisamos de ferramentas que melhorem não só o atendimento, mas que nos ajudem a entender como o médico atende o paciente. Não podemos mais aceitar a autonomia absoluta sem padrões”.
Já Pedrotti concluiu com uma reflexão sobre a necessidade de mudança cultural: “A tecnologia, quando usada corretamente, aproxima médicos e pacientes, não afasta. Mas para isso, precisamos repensar processos, garantir acesso aos dados e, principalmente, trazer os médicos para o centro dessa transformação”.
Segurança cibernética e como reagir a um ataque
Mais tarde, o painel “Sobrevivendo a um ataque cibernético: o valor da reação dos hospitais” reuniu no palco Cássio Menezes, Diretor de Segurança da Informação na Amil; Marcio Neri, CISO na Unimed do Brasil; e Alexandre Domingos, Diretor de Operações e Segurança de TI na DASA; com moderação de Leandro Ribeiro, CISO no Hospital Sírio-Libanês e Coordenador do GT de Cibersegurança na ABCIS.
Para começar a discussão, Leandro Ribeiro compartilhou alguns números de pesquisa da Universidade de Minnesota:
- Um ataque ransomware pode diminuir de 17 a 26% o volume de um hospital;
- A recuperação após um ataque cibernético pode levar até três semanas;
- Nesse período, a taxa de mortalidade aumenta de 35 e 41%, e a receita hospitalar diminui de 20 a 37%.
A importância da preparação antes da crise
Um dos consensos entre os especialistas foi que a capacidade de resposta rápida a um ataque que compromete a segurança digital não se constrói durante a crise. “Voltar rápido é uma capacidade, não uma decisão que você tem que tomar”, afirmou Cássio Menezes.
Ele enfatizou uma mudança de paradigma fundamental: “Enquanto a gente pensar segurança cibernética como algo técnico com impacto humano, a gente não vai criar e construir resiliência. Segurança da informação é um problema humano com componentes técnicos”.
Marcio Neri complementou destacando a complexidade do ecossistema da Unimed, com mais de 170 hospitais, além de clínicas e ambulatórios, e a necessidade de resiliência além da tecnologia: “A gente precisa ter uma atenção especial também aos nossos processos manuais, aqueles que vão garantir a sustentabilidade independente da tecnologia”.
Alexandre Domingos trouxe sua experiência dos mercados financeiro e de telecomunicações para ilustrar a importância da continuidade de negócio. “Se a gente não se preparar antes, tentar voltar rápido um sistema em uma situação dessa é como reabrir um centro cirúrgico sem esterilizar”, comparou. Segundo ele, para garantir uma reação rápida, a instituição deve ter ciência sobre quais são seus processos críticos e quais sistemas precisam ser recuperados primeiro.
Os painelistas apontaram como a cibersegurança envolve pessoas, processos e produtos. O fator humano foi destacado como principal, inclusive para garantir a reação em momentos de crise.
Setor deve compartilhar informações
Um dos pontos debatidos foi a necessidade de compartilhamento de informações sobre ameaças e incidentes entre instituições do setor. “A gente não vai competir no tratamento de uma fraude, no tratamento de um incidente cibernético. A gente compete apenas no âmbito de negócio”, começou Menezes.
Já Domingos destacou um paradoxo: “Os criminosos compartilham o modus operandi da fraude e a gente não compartilha as ameaças e protocolos de segurança”. Também foi comentado como já existem grupos de executivos que fazem essa troca de cases e melhores práticas em prevenção de ataques cibernéticos.
Para finalizar o painel, Ribeiro reforçou que a ABCIS oferece, gratuitamente, um manual de Segurança da Informação para o setor de saúde.
Essa foi a primeira edição do CTISD, que tem curadoria da ABCIS – Associação Brasileira CIO Saúde. A associação mantém a parceria com a Informa Markets, organizadora da Hospitalar, e retorna com mais conteúdo durante o HIS 2026, marcado para os dias 16 e 17 de setembro.
Acompanhe a cobertura completa da Hospitalar no Saúde Business.