Por Helton Freitas*

Nunca houve tanta tecnologia disponível para a saúde. E nunca foi tão complexo liderar organizações do setor. O envelhecimento da população, a incorporação acelerada de novas tecnologias, a inteligência artificial, as mudanças no perfil epidemiológico e a crescente pressão por eficiência transformaram profundamente o ambiente de decisão na saúde.

Na saúde suplementar, essa realidade já se reflete em números expressivos. Segundo dados divulgados em agosto deste ano pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), o setor já atende mais de 53 milhões de beneficiários.

Dados preliminares referentes ao primeiro semestre de 2026 mostram ainda que, entre as operadoras de médio e grande porte acompanhadas mensalmente pela Agência, as receitas efetivas de operações de saúde já somavam R$ 154,9 bilhões, enquanto as despesas assistenciais alcançavam R$ 126,4 bilhões. Ao mesmo tempo, o crescimento da judicialização evidencia que os desafios deixaram de ser apenas clínicos: tornaram-se também estratégicos, gerenciais e humanos.

Nesse cenário, não basta formar excelentes profissionais técnicos. É preciso preparar pessoas capazes de liderar equipes, tomar decisões complexas, gerir recursos escassos e construir soluções colaborativas. A formação de lideranças passa a ocupar, portanto, um espaço estratégico na educação em saúde.

Liderar exige compreender pessoas, desenvolver equipes, administrar conflitos, comunicar-se com clareza, integrar diferentes áreas do conhecimento e tomar decisões sem perder de vista o propósito maior do cuidado.

Por isso, a formação de líderes não deveria começar apenas quando o profissional assume uma função gerencial. Ela precisa fazer parte da própria trajetória educacional. O conhecimento cumpre plenamente sua função quando é capaz de produzir impacto na vida das pessoas, nas organizações e na sociedade.

Liderança como parte da formação em saúde

Essa responsabilidade também cabe às instituições de ensino. Mais do que transmitir conteúdos, elas precisam criar ambientes que desenvolvam pensamento crítico, colaboração, capacidade de adaptação, visão sistêmica e responsabilidade ética. São essas competências que permitirão aos profissionais responder aos desafios de um setor em constante transformação.

Na saúde, essa necessidade é ainda mais evidente. Uma decisão de liderança pode repercutir simultaneamente sobre a experiência do paciente, o trabalho das equipes, a sustentabilidade financeira das organizações e a qualidade da assistência. Basta pensar em decisões relacionadas à adoção de novas tecnologias, à organização das equipes ou ao redesenho de processos assistenciais. Seus efeitos ultrapassam a gestão e chegam diretamente ao cuidado.

Não por acaso, o perfil das lideranças também mudou. A pesquisa Global Health Care Outlook 2026, da Deloitte, realizada com cerca de 180 executivos de sistemas de saúde, aponta que os principais desafios dos próximos anos estarão relacionados à força de trabalho, à produtividade, à sustentabilidade financeira e à transformação dos modelos assistenciais.

O líder do futuro precisará transitar entre a ciência e a gestão, entre a tecnologia e as relações humanas, entre os indicadores e as histórias que eles representam.

Isso também exige repensar o próprio conceito de liderança. Liderar não significa apenas ocupar posições hierárquicas. Significa influenciar positivamente, mobilizar pessoas, construir confiança e criar condições para que boas ideias se transformem em resultados concretos.

A educação tem papel decisivo nesse processo. Ao oferecer experiências de aprendizagem conectadas aos desafios reais das organizações e da sociedade, as instituições de ensino contribuem para formar profissionais capazes não apenas de executar tarefas, mas de interpretar cenários, fazer perguntas relevantes, exercer julgamento e conduzir mudanças.

Os próximos anos serão marcados por transformações ainda mais profundas. A inteligência artificial ampliará capacidades, novos modelos de cuidado serão desenvolvidos e as fronteiras entre diferentes áreas profissionais ficarão cada vez mais integradas. A tecnologia apoiará decisões, mas continuará sendo indispensável alguém capaz de compreender contextos, equilibrar interesses e colocar as pessoas no centro das escolhas.

A saúde sempre será feita por pessoas e para pessoas. Por isso, o maior diferencial competitivo das organizações não será apenas a tecnologia que incorporarem, mas a qualidade das lideranças que formarem. Preparar líderes para cuidar é, em última instância, preparar o futuro da própria saúde.

*Helton Freitas, presidente da Fundação Unimed e diretor-geral da Faculdade Unimed.