A inteligência artificial deixou de ser uma discussão sobre futuro e passou a ocupar um espaço concreto na agenda estratégica das instituições de saúde. O desafio, agora, não está apenas em testar soluções, mas em colocá-las em prática com escala, segurança e governança.
Esse foi o tema do primeiro episódio do Podcast Hospitalar: Estúdio Saúde Business, onde entrevistamos Mônica Pugliesi, Diretora Corporativa de Inteligência Artificial Aplicada e Inovação da Rede D’Or. Gravado diretamente da Hospitalar 2026, a executiva destacou que a IA já saiu da fase de experimentação e passou a exigir estruturas mais sólidas para garantir uso ético, responsável e sustentável dentro das organizações de saúde.
Segundo Mônica, esse movimento também já é percebido no Brasil. A partir de sua participação em um evento internacional em Las Vegas, ela observou uma mudança clara no debate: há alguns anos, o setor discutia como a IA poderia transformar a saúde; agora, a pauta passou a ser como essa transformação já está acontecendo na prática.
“Quando você coloca IA na prática, entendendo tudo o que está por trás para garantir os pilares do uso ético e responsável, você acaba trazendo outras temáticas importantes, como a governança”
Mônica Pugliesi, Diretora Corporativa de Inteligência Artificial Aplicada e Inovação da Rede D’Or
IA precisa ser acompanhada em todo o ciclo de vida
Na avaliação da executiva, a governança em inteligência artificial deve estar presente desde a escolha de fornecedores e o desenvolvimento de algoritmos até o acompanhamento das soluções já implementadas.
Esse cuidado é necessário porque os sistemas podem evoluir, ser retreinados e gerar impactos diferentes ao longo do tempo. Por isso, Mônica defende que a IA seja avaliada continuamente, especialmente quando aplicada a processos assistenciais.
Entre os pilares para uma adoção segura, ela citou transparência, equidade, segurança e privacidade, accountability e presença humana na decisão final. Esse último ponto, segundo a executiva, é especialmente relevante quando a tecnologia pode influenciar decisões relacionadas ao cuidado.
Diversidade pode favorecer o Brasil
Durante a entrevista, Mônica também destacou que o Brasil tem uma oportunidade relevante no avanço da inteligência artificial aplicada à saúde.
Na visão da executiva, a diversidade da população e a variabilidade de dados disponíveis no país podem favorecer o desenvolvimento de soluções com potencial de aplicação global. Para isso, no entanto, é preciso que o uso desses dados seja conduzido com responsabilidade, segurança e atenção à mitigação de vieses.
Para ela, a transparência no uso da IA não deve ser tratada como diferencial competitivo, mas como obrigação, sobretudo em um setor que lida diretamente com pessoas, cuidado e tomada de decisão clínica.
Liderança hospitalar entra no centro da discussão
Outro ponto abordado foi o papel da liderança na adoção da inteligência artificial. Segundo Mônica, o avanço da IA exige gestores mais preparados para compreender tecnologia, identificar oportunidades na operação e dialogar com equipes técnicas.
A executiva avaliou que tecnologia e estratégia precisam caminhar de forma integrada dentro das instituições. Nesse contexto, líderes da assistência, áreas de negócio e times técnicos passam a ter um papel conjunto na definição de prioridades, investimentos e critérios de segurança.
Na Rede D’Or, segundo Mônica, a tomada de decisão sobre IA envolve uma triangulação entre tecnologia, negócio e visão médica, com comitês responsáveis por avaliar viabilidade tecnológica, entrega de valor e qualidade assistencial.
Aplicações já avançam na rotina assistencial
Entre as aplicações mais maduras no setor, Mônica citou os Ambient Scribes, ferramentas baseadas em transcrição de voz para geração de documentos clínicos.
Na Rede D’Or, esse tipo de solução já está presente em diversas unidades e contribui para otimizar o atendimento médico e melhorar a experiência dos profissionais com o prontuário eletrônico. Segundo a executiva, a tecnologia atua tanto na eficiência operacional quanto no apoio à rotina dos profissionais de saúde.
Risco de viés exige atenção das instituições
Para Mônica, um dos principais riscos da IA na saúde é a ampliação de vieses humanos, especialmente quando a tecnologia passa a apoiar automações ou tomadas de decisão assistenciais.
Ela reforçou que inovação, governança, segurança e qualidade do cuidado precisam avançar de forma conjunta. Embora a regulação seja necessária, a executiva também destacou a importância de manter um ambiente favorável à experimentação responsável.
Ao final da entrevista, Mônica afirmou que este é o momento para gestores e profissionais de saúde estudarem e acompanharem as transformações da inteligência artificial. Segundo ela, entender essa tecnologia tende a ser um diferencial competitivo para quem atua no setor. A conversa completa pode ser conferida no canal do Portal Saúde Business no YouTube.