O rastreamento do câncer colorretal não se resume à oferta de exames. A estratégia envolve organizar território, população-alvo, capacidade da rede, acesso e fluxos de encaminhamento para que a identificação de casos possa ocorrer antes do avanço da doença.

É a partir dessa perspectiva que o A.C.Camargo Cancer Center, em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde de Guarulhos, lançou o Programa Missão Colorretal, na última terça-feira, 29 de setembro.

A iniciativa prevê apoiar a gestão municipal na estruturação da linha de cuidado do câncer colorretal, do rastreamento à vida pós-câncer. O programa começa com um diagnóstico da realidade local para identificar barreiras de acesso, capacidade para realização de exames e lacunas nos fluxos assistenciais.

A partir desse levantamento, a proposta é construir um plano de cuidado adaptado às características do território e avaliar a possibilidade de replicação das soluções em outros locais.

O programa é lançado em um cenário de alta incidência da doença no país. Para o triênio 2026-2028, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 53.810 novos casos de câncer colorretal por ano no Brasil, que está entre os tipos de câncer mais frequentes em homens e mulheres.

Quando diagnosticado no início, o câncer colorretal apresenta chances de cura superiores a 90%, segundo levantamento do A.C.Camargo. Esse percentual cai para cerca de 55% quando a doença é identificada em estágio avançado, situação que ainda atinge mais da metade dos pacientes.

“O rastreamento salva vidas. É preciso entender que o exame é um dos caminhos para um envelhecimento com mais saúde e qualidade de vida”, diz Samuel Aguiar, líder do Centro de Referência em Tumores Colorretais do A.C.Camargo.

“O diagnóstico tardio do câncer colorretal exige tratamentos mais agressivos, como cirurgias extensas e quimioterapia, além de reduzir sensivelmente as chances de cura. É exatamente por isso que a Missão Colorretal nasce com esse olhar amplo, pois queremos que Guarulhos seja o primeiro passo de um modelo que consiga chegar antes da doença avançar”, complementa Aguiar.

Rastreamento exige organização da rede

Ampliar o rastreamento envolve mais do que aumentar a quantidade de exames disponíveis. É preciso definir a população que será rastreada, estabelecer estratégias para alcançá-la, garantir a realização e o acompanhamento dos exames e estruturar os caminhos para investigação dos resultados alterados e tratamento dos casos identificados.

Por isso, a primeira etapa da Missão Colorretal será o mapeamento dos territórios e de suas populações, combinado à análise da capacidade instalada da rede de saúde de Guarulhos. O diagnóstico deverá identificar gargalos e orientar um plano estratégico compatível com as características de cada região.

A primeira fase envolve quatro Unidades Básicas de Saúde, uma em cada macrorregião do município, de forma a contemplar diferentes perfis e necessidades territoriais. A escolha também se conecta aos movimentos já em curso na Secretaria Municipal de Saúde de Guarulhos para reorganizar sua rede assistencial.

A proposta é que os aprendizados dessa etapa sejam consolidados em relatórios (roadmaps) de implementação, permitindo avaliar os resultados da experiência, identificar ajustes necessários e analisar a possibilidade de levar as soluções a outros territórios.

Do diagnóstico precoce à organização do cuidado

Márcio Chaves Pires, secretário de saúde de Guarulhos, e Victor Piana, CEO do AC.Camargo

A inclusão do rastreamento em uma linha de cuidado amplia o desafio para além da realização do exame. Para a gestão, a estratégia envolve conectar diferentes etapas da jornada: identificar a população elegível, garantir acesso, acompanhar os resultados, encaminhar casos suspeitos e assegurar a continuidade do cuidado.

A relação entre diagnóstico e utilização de recursos assistenciais também coloca o rastreamento no campo da gestão. Casos identificados em estágios mais avançados podem demandar tratamentos mais complexos, enquanto a organização dos fluxos busca reduzir atrasos e perdas de seguimento. O desafio, nesse sentido, é transformar uma estratégia de prevenção e diagnóstico precoce em uma linha de cuidado capaz de funcionar de forma coordenada no território.

O programa foi apresentado no Teatro Adamastor, em Guarulhos, com a participação de representantes do A.C.Camargo, entre eles o Victor Piana, CEO; Samuel Aguiar, líder do Centro de Referência de Tumores Colorretais; Ana Pinho, diretora da área de Impacto na Sociedade; e Samara Kielmann, gerente de Impacto na Sociedade.

Também participaram autoridades e profissionais da Secretaria Municipal de Saúde de Guarulhos, como Márcio Chaves Pires, secretário de Saúde, e Magno Silva de Moura, diretor do Departamento de Assistência Integral à Saúde.

O encontro terminou com a assinatura da parceria entre o A.C.Camargo e a Secretaria Municipal de Saúde de Guarulhos, formalizando o início da Missão Colorretal no município. A experiência em Guarulhos, de acordo com os organizadores deverá gerar aprendizados para a estruturação da linha de cuidado e subsidiar a avaliação de possíveis modelos de replicação em outros territórios.