Para melhor compreender o surgimento e o crescimento do movimento norte-americano de médicos hospitalistas, é interessante relembrar alguns aspectos históricos da assistência hospitalar por lá. Em meados do século 20 e a partir daí, aumentou significativamente a necessidade de uma gestão mais profissional das instituições: passaram a crescer muito do ponto de vista estrutural, a empregar de centenas a milhares (todos os outros profissionais da saúde inicialmente, exceto a maioria dos médicos), e diversos novos desafios, como incorporação de tecnologias, foram aparecendo cada vez mais e mais rápido. O médico era ainda um ilustre visitante do hospital. “The doc of the case“, quando o paciente precisava de uma internação, seguia como responsável maior, até mesmo quando procedimentos bem específicos e não relacionados à sua especialidade eram demandados. Havia um entendimento natural de que era quem deveria estar na coordenação do processo, mesmo que à distância na maior parte do tempo, e foi assim até bem recentemente. Entendimento natural nos EUA, já que em diversos outros países, como na Inglaterra e na Austrália, ocorreu antes: assistência hospitalar e ambulatorial um tanto quanto divididas, pouca expectativa de que o médico da atenção primária fosse ficar também responsável pelo paciente hospitalizado. O EUA ficou conhecido como o berço da Hospital Medicine em função da grande quebra de paradigma local e da impressionante velocidade de crescimento do movimento.

Sugestão de leitura complementar: Whereas the U.S. hospitalist model has all-but-replaced a system in which the primary care physician was expected to be the physician-of-record in the hospital, the UK never had such a system. Instead, general practitioners in Britain have always confined their work to the outpatient world; patients in need of hospital care have been handed off to different physicians since the days of Alexander FlemingLeia aqui

Este sistema do “médico do paciente” funcionou razoavelmente bem nas enfermarias norte-americanas por décadas. No início dos anos 80, as coisas começaram definitivamente a mudar. Em 1983, o Medicare alterou a forma de pagar. Começaram a fazer por diagnósticos (DRGs: diagnosis-related groups), não mais por dia. Subitamente, hospitais passaram a enfrentar enorme pressão para redução de tempo de internação e custos. Médicos continuaram, na sua maioria, sendo pagos por dia, criando maior tensão entre seus interesses financeiros e os dos hospitais. O impacto destas forças foi contundente: se antes um médico da atenção primária costumava ter, em média, de oito a doze pacientes no hospital, passou a ter um, no máximo, três.  Isto fez a bolha romper e impulsionou a Medicina Hospitalar. Também atuaram como facilitadores do modelo, além de fatores econômicos, a crescente complexidade da assistência hospitalar, modificações nas regras da residência médica (e o cumprimento delas) e os movimentos de qualidade assistencial e segurança do paciente (estes movimentos, partindo de enfermarias, e a Medicina Hospitalar estabelecendo um dilema de causalidade que me lembra muito a expressão “O que veio antes, o ovo ou a galinha?”).

Cabe lembrar ainda que nos departamentos de emergência e unidades de tratamento intensivo norte-americanos os pacientes já foram acompanhados de perto por enfermeiros, e os médicos passavam visita ou eram chamados de fora para vê-los em caso de intercorrências.  Com o passar do tempo, reconheceu-se a necessidade de um grupo para atuação dedicada nestes locais, trabalhando ao lado dos enfermeiros e demais profissionais da saúde, e prontamente disponível em caso de emergências. Onde deram condições para protagonismo destes grupos, os resultados foram e são comprovadamente superiores. Uma descontinuidade foi construída no sistema e nasceram duas especialidades médicas: Medicina Intensiva e Medicina de Emergência. O surgimento da Medicina Hospitalar foi a expansão seguinte desta tendência, e, visto assim, fica mais fácil de entender o processo como  evolucionário, e não revolucionário, por mais que exista quem tenha saudades de como as coisas eram – tempos que por lá não voltam mais. O sistema norte-americano claramente se dividiu com três tipos de médicos categorizados de acordo com sua relação com o hospital: Office-based physicians, The home team (intensivistas, emergencistas e, por fim, hospitalistas) e Important visitors (os sub-especialistas, indispensáveis à prática da Medicina moderna), e segue se moldando com cada vez menos visitantes e mais profissionais dedicados.

No Brasil, tenho buscado promover o modelo de MH nos últimos oito anos sob condições diferentes. O calcanhar de Aquiles do movimento lá sempre foi a quebra de continuidade entre hospital e ambulatório, a ter com a Medicina Hospitalar mais significado do que com a Medicina Intensiva e a Medicina de Emergência, pelo menos em tese.

– No Sistema Único de Saúde brasileiro, ao menos nas grandes cidades, está continuidade há muito já não existe!!!