Na véspera do Dia do Médico, ficamos sabendo que quatro deles, se é que podemos dar a eles esse título, irão a júri popular por terem matado pacientes para retirar órgãos e vendê-los a uma rede clandestina de transplantes. O crime é antigo, ocorreu há 25 anos, em Taubaté (SP). Mas de lá pra cá registramos muitos avanços tecnológicos na medicina e muito retrocesso na relação médico-paciente.

Podemos falar da desvalorização da profissão, da banalização da saúde, dos valores muito baixos pagos pelas seguradoras e da desatualização das tabelas de reembolso ? recentemente 90% da categoria aderiu à greve contra os planos de saúde ? e, por outro lado, dos valores astronômicos cobrados pelos médicos particulares que não atendem os convênios.

A vocação de se dedicar ao doente e à pesquisa científica que alguns profissionais têm e exercem de maneira nobre é cada vez mais rara nos tempos atuais. Ser médico custa caro e leva tempo. Dados do Conselho Regional de Medicina no Estado de São Paulo (Cremesp), de 2007, indicam que havia 2,3 médicos para cada mil pessoas no Estado.

O que aconteceu com uma profissão altamente respeitada e valorizada em que o doutor era quase um deus? Por onde anda o médico de família? Aquele que podia buscar a origem das mazelas e estabelecer conexões entre os familiares e as doenças? Será que o desenvolvimento científico que tantos benefícios trouxe à saúde, prolongando a vida da população e diminuindo o sofrimento, ironicamente é o vilão da história e o responsável pela crise na relação médico-paciente?

Ou seria, ainda, a superespecialização responsável por ter afastado os médicos dos pacientes? Quem sabe hoje o que é anamnese? O sujeito vai à consulta e o médico nem sequer pergunta qual a sua ocupação, não o escuta e nem o auscuta mais. A doença humilha, deprime e angustia e o médico não consegue ter paciência de lidar com estas questões ou, ainda, ter uma atitude de acolhimento, que surte melhor efeito que o remédio na maioria das vezes.

Para se defender do descaso, o paciente, por sua vez, recorre ao Google, que já foi apelidado de o melhor médico do mundo porque conhece todas as enfermidades. Com sua bagagem da internet, o paciente discute com o médico e já traz receitas.