Quando pensamos em ineficiência na saúde, raramente olhamos para a Suíça. É um dos sistemas mais bem financiados do planeta: o país gasta cerca de 12% do seu PIB em saúde — o dobro do que investe em educação e muito acima da média da OCDE.
No entanto, uma edição recente da revista econômica suíça PME trouxe um dado que deveria nos soar familiar: apenas cerca de 35% das cirurgias suíças são feitas em regime ambulatorial. Sete em cada dez pacientes ainda passam a noite internados após um procedimento, quase três vezes mais do que nos países líderes na prática, como Reino Unido (90%), Suécia (88%) ou Países Baixos (82%).
Dinheiro, portanto, não é o problema. E é exatamente aí que a Suíça deixa de ser um caso distante e passa a ser um espelho.
O mesmo gargalo, dois continentes
No Brasil, convivemos com o mesmo descompasso. Temos tecnologia, equipes capacitadas, temos evidência científica de sobra mostrando que boa parte das intervenções pode (e deve) ser resolvida sem internação. Mas nossa taxa de ambulatorização cirúrgica segue aquém do que o próprio conhecimento médico e a tecnologia permitem já há algum tempo.
Dois países de contextos econômicos e sanitários muito diferentes, travados pelo mesmo pano de fundo: o hospital continua sendo tratado como o destino natural do paciente, e não como um dos pontos de uma rede de cuidado. Essa é a herança cultural que nenhum dos dois sistemas conseguiu, ainda, superar.
Três nós que se repetem
Ao ler o diagnóstico suíço, quem atua na cirurgia ambulatória no Brasil reconhece imediatamente os mesmos três nós.
O primeiro é o modelo de remuneração. A Suíça enterrou em janeiro de 2026 o seu antigo sistema de pagamento por ato (o Tarmed) e inaugurou o Tardoc, baseado em pacotes (“forfaits”) e revisado ano a ano.
A lógica é conhecida por aqui: enquanto o incentivo financeiro premiar o volume e a internação, ninguém tem interesse real em migrar para o ambulatório. Nossas discussões sobre remuneração por pacote, diretrizes de utilização e o peso do fee-for-service são a versão brasileira do mesmo dilema.
O segundo é o marco legal. Na Suíça, a lei do seguro-saúde (LAMal) sequer reconhece uma categoria própria para o prestador puramente ambulatorial. Um centro que só faz ambulatório, pela letra da lei, não é considerado “hospital”. O efeito prático é uma estrutura jurídica que atrasa aquilo que a medicina já pratica. No Brasil, vivemos tensões análogas na forma como a regulação enquadra, e às vezes desestimula, os serviços dedicados.
O terceiro é a coordenação do cuidado. Tratar bem em ambulatório exige acompanhamento fino no pós-operatório, integração entre os níveis de atenção e informação que circule entre quem prescreve, quem opera e quem cuida em casa. É o elo mais frágil dos dois lados — e o que mais decide se a ambulatorização será segura ou apenas mais barata.
Uma agenda compartilhada
Aqui entra o que considero a lição mais importante, e não é uma lição de um país para o outro, mas de um país com o outro. Estruturas internacionais como a IAAS (International Association for Ambulatory Surgery), da qual a SOBRACAM faz parte, existem justamente para que esses paralelos deixem de ser coincidência e virem troca concreta de solução.
O hospital não é o destino
O debate suíço termina onde o nosso também precisa chegar: o hospital não deve mais ser o ponto de chegada, e sim um elemento específico de uma rede coordenada. A ambulatorização não é uma agenda de corte de custos, é uma agenda de melhor cuidado, com menos infecção hospitalar, recuperação mais rápida e retorno mais ágil à vida normal. Que ela seja também mais econômica é consequência, não objetivo.
Se há algo que Brasil e Suíça têm de fato em comum, é a constatação de que riqueza e tecnologia não bastam. O que falta, nos dois lados do Atlântico, é coragem regulatória, um modelo de remuneração que aponte na direção certa e a disposição de trabalhar em rede. Esta é a pauta que precisa ser discutida para alavancar a cirurgia ambulatorial, seja na Suíça, seja no Brasil.
Notas: Dados suíços citados a partir do dossiê “L’hôpital de demain, un hôpital sans lits?”, revista PME, junho de 2026; Comparativo internacional: OECD Health Statistics.