Um ano após apresentar o prontuário eletrônico único do cidadão como infraestrutura pública digital, Marcelo Mariani volta ao Healthcare Innovation Show com o que a SMED já colocou em prática, e com os números que transformaram essa visão em referência concreta para o setor.

Ele volta ao HIS 2026 como patrocinador e sem mudar o discurso. O que muda é o contexto: agora vem com evidências. Sergipe. Dezessete unidades estaduais integradas. 11,7 milhões de procedimentos ambulatoriais por ano processados em nuvem. O primeiro hospital público 100% sem papel do Brasil, em operação desde 2018. Um modelo que custa dez vezes menos do que soluções americanas equivalentes e que, por ter demonstrado funcionar em um estado do Nordeste com orçamento restrito, prova que pode funcionar em qualquer lugar.

Nesta entrevista, Mariani fala sobre o que mudou no mercado, o que não mudou na SMED, e por que a corrida pela inteligência artificial na saúde vai esbarrar, mais cedo ou mais tarde, no mesmo problema que ele tenta resolver há 24 anos: a qualidade do dado na origem.

No HIS 2025, você apresentou um conceito que ainda soava novo para muita gente: o prontuário eletrônico como infraestrutura pública digital. Um ano depois, o HIS 2026 coloca exatamente esse tema no centro da sua programação. O que mudou?

O que mudou foi o grau de urgência que o setor atribuiu ao tema. No HIS 2025, eu apresentei o conceito de infraestrutura pública digital e percebi que parte da audiência ainda estava conectando os pontos. Hoje, quando o HIS 2026 organiza um palco inteiro dedicado a Acesso e Escala, com debates sobre transformação digital do SUS, sustentabilidade dos sistemas e integração público-privada, fica evidente que o mercado chegou ao mesmo lugar. O setor entendeu que não se trata de tecnologia hospitalar — se trata de infraestrutura básica da sociedade, como estradas ou rede elétrica.

A comparação que uso é simples: ninguém discute se o país precisa de rodovias. A questão é como construí-las, com que padrão técnico, com que modelo de governança e com que financiamento. Com o prontuário único, chegamos ao mesmo ponto. A discussão mudou de “precisamos digitalizar?” para “como fazemos isso funcionar em escala, com custo acessível e dados que realmente sirvam à gestão?”

O HIS 2026 também destaca, pela primeira vez com tanta ênfase, a transformação digital do SUS como tema central. A Secretaria de Saúde de São Paulo apresentou recentemente o NIES — Núcleo de Inteligência Estratégica em Saúde — com 29 bases de dados integradas e mais de 20 milhões de registros de usuários. Como você lê esse movimento?

O NIES é uma prova muito importante de que o setor público chegou a uma maturidade que não existia há dez anos. A SES-SP conseguiu conectar 29 bases de dados, dar visibilidade a gestores e já começa a pensar em disponibilizar parte das informações para o público. Isso é exatamente o caminho que defendemos.

Mas eu quero colocar uma questão que acho relevante: o NIES chegou onde chegou porque alguém, em algum momento, decidiu organizar os dados na origem. Sem dados estruturados no ponto de atendimento — na recepção, no consultório, na farmácia, no laboratório — nenhuma plataforma analítica funciona. O que o Sergipe fez com a SMED, ao integrar 12 unidades estaduais, 1.331 leitos e processar 11,7 milhões de procedimentos ambulatoriais por ano em um único ambiente em nuvem, criou exatamente essa base. A inteligência estratégica vem depois. Primeiro você precisa ter o dado de qualidade na entrada.

Falando em Sergipe: você apresentou esse case como um dos poucos modelos no mundo com essa escala em sistema público. O que diferencia o modelo de Sergipe de iniciativas como o NIES ou a própria RNDS federal?

São camadas complementares, não concorrentes. A RNDS é uma iniciativa federal de interoperabilidade — ela quer conectar sistemas que já existem. O NIES é uma plataforma analítica que consolida dados de diversas fontes. O que Sergipe fez, com a SMED, foi diferente: construiu do zero uma infraestrutura integrada para toda a rede de média e alta complexidade do estado, com prontuário único do cidadão, compartilhado em tempo real entre hospitais, UPAs, policlínicas e hemocentro.

A diferença prática é enorme. A solução adotada em Sergipe implantou por meio de um único sistema tanto a automação das unidades hospitalares quanto a disponibilização de infraestrutura digital pública para a Secretaria Estadual de Saúde poder desenvolver suas políticas de saúde. Quando um paciente é transferido entre unidades em Sergipe, o médico que o recebe já tem todo o histórico disponível. Não depende de ligação, de papel, de memória do paciente. Isso já funciona. É isso que o modelo demonstra: é possível ter cobertura universal, custo acessível e funcionamento real em um estado do Nordeste, com as limitações orçamentárias que todos conhecemos.

Se funciona lá, funciona em qualquer estado do Brasil. Se funciona num país em desenvolvimento de dimensão continental, funciona em qualquer lugar do mundo. O modelo de Sergipe permite integrar os dados do paciente na RNDS para viabilizar a formação da infraestrutura digital pública em escala Federal.

O HIS 2026 tem inteligência artificial como um dos temas mais presentes — IA e governança, modelos preditivos, hospital preditivo. Qual é a sua visão sobre a relação entre IA e o tipo de infraestrutura que a SMED constrói?

IA na saúde depende de uma condição que raramente é discutida com honestidade: a qualidade e a organização da base de dados. Algoritmos treinados em dados fragmentados, inconsistentes ou incompletos produzem outputs que não servem à gestão e podem comprometer a assistência.

O que a SMED faz é construir a camada que torna a IA possível. Quando você tem 100% dos atendimentos registrados digitalmente, todos os fluxos — recepção, triagem, prescrição, exame, farmácia, leito — passando pelo mesmo sistema, em nuvem, com rastreabilidade de cada ação, você tem uma base sobre a qual qualquer ferramenta de BI, analytics ou inteligência artificial pode operar com consistência.

O hospital preditivo — tema que já está na agenda do HIS 2026 — não começa com o algoritmo. Começa com o prontuário organizado. Começa com a integração real entre setores. Começa com o dado estruturado no ponto de cuidado. Quem não resolveu isso primeiro vai comprar IA e descobrir que não tem o que alimentar.

As empresas de Healthtech que mais se valorizam são aquelas geradoras de informação de qualidade pois a informação é o verdadeiro diferencial competitivo

O HIS 2026 confirmou Portugal como país convidado, depois da Estônia no ano anterior. A Estônia apareceu também na sua apresentação do HIS 2025 como pioneira no prontuário nacional. O Brasil está à frente ou atrás nessa corrida?

Quando você compara Sergipe com Estônia, o que vê é interessante. A Estônia tem 99% de cobertura, prontuário nacional único, acesso do cidadão 24/7. É pioneira e tem o mérito de ter chegado lá primeiro, em 2008. Mas ela tem 1,3 milhão de habitantes. É um país do tamanho de um município grande do Brasil.

Sergipe tem um modelo com características que a Estônia não tem: atende uma rede de alta e média complexidade em um ambiente continental, com restrições orçamentárias reais, e ainda assim integra 17 unidades em tempo real. Dinamarca, Reino Unido, Canadá — todos têm limitações que o modelo de Sergipe não tem. O Canadá, por exemplo, opera por província, sem prontuário nacional único. O Reino Unido tem 67 milhões de pacientes no NHS, mas com fragmentação regional.

O Brasil está mais avançado do que o debate interno reconhece. Temos um case real, escalável, com custo dez vezes menor que soluções americanas e arquitetura preparada para crescer. O que falta não é tecnologia — é reconhecer o que já foi construído e ter a decisão política de escalar.

É verdade que o Brasil ainda tem grandes vazios assistenciais especialmente no Norte e Nordeste, porém a informatização deve ser vista como uma ferramenta para ajudar a preencher tais lacunas

Além da IA e da transformação digital, o HIS 2026 traz um tema que estava ausente em edições anteriores com essa força: sustentabilidade financeira dos sistemas de saúde. Como a SMED se posiciona nesse debate?

Esse é um ponto onde acredito que temos uma contribuição real e diferenciada. O setor vive uma contradição: pressão crescente por inovação e redução de orçamentos. Hospitais precisam de tecnologia mais sofisticada e têm menos dinheiro para gastar.

Nossa arquitetura foi desenhada para resolver exatamente esse problema. Usamos sistemas abertos, sem licenciamento caro por usuário ou por transação. Operamos em nuvem, eliminando a necessidade de infraestrutura local robusta. O mesmo sistema que roda em um hospital universitário de alta complexidade roda em uma UPA de cidade pequena.

O resultado prático é que chegamos onde os grandes fornecedores não chegam — não porque falta capacidade técnica, mas porque o custo deles torna o projeto inviável para a maioria dos estados e municípios brasileiros. E essa é uma oportunidade enorme de mercado, porque 90% das unidades do SUS ainda operam sem sistemas de gestão integrados adequados.

Um dos debates mais esperados do HIS 2026 é sobre como fazer a inovação acontecer na saúde pública, com acesso e escala. Na sua visão, qual é o papel da iniciativa privada nesse processo?

A minha defesa é clara: o Estado precisa definir os padrões técnicos, as regras de acesso, a governança e a segurança dos dados. Mas a execução, a capacidade de mobilização e a velocidade de implantação precisam vir da iniciativa privada.

Os sistemas que o Ministério da Saúde oferece gratuitamente, como o e-SUS, atendem à atenção básica, mas não suprem as demandas de unidades de média e alta complexidade. Gestão de leitos, centro cirúrgico, oncologia, hemodinâmica, faturamento SUS — são processos que exigem soluções especializadas. Se o Estado tentar desenvolver tudo isso sozinho, leva décadas e não acompanha a velocidade da inovação.

O modelo que funciona é o de parceria. Em Sergipe, o Estado definiu as regras, a SMED executou. No Instituto Couto Maia, uma PPP, nossa empresa de gestão construiu e opera o hospital, nossa empresa de tecnologia digitalizou todos os processos. O resultado é o primeiro hospital público do Brasil 100% sem papel, funcionando desde 2018, com 130 leitos de alta complexidade, 100% SUS, toda a equipe operando com certificados digitais.

Esse é o modelo que queremos ver replicado.

O HIS 2025 foi a edição em que você apresentou pela primeira vez o conceito de One Health para esse público. O HIS 2026 já tem na programação debates sobre saúde conectada, monitoramento contínuo e dados integrados. Onde você vê o One Health na agenda do setor hoje?

O One Health ainda não entrou com esse nome no vocabulário do mercado hospitalar, mas os elementos que o compõem já aparecem na agenda de várias formas. Quando o HIS 2026 discute vigilância epidemiológica, quando o NIES integra dados de arboviroses e disponibilidade de sangue por região, quando a Hospitalar 2026 fala em dados orientados à decisão — todos estão tocando na mesma questão de fundo: como transformar informações dispersas em inteligência útil para prevenir, não apenas tratar.

One Health é o horizonte mais amplo dessa mesma lógica. Setenta e cinco por cento das doenças emergentes têm origem animal. A COVID-19 demonstrou com brutalidade o que acontece quando não existe integração entre vigilância sanitária humana, saúde animal e informação ambiental. O próximo passo, inevitável, é uma base de dados que integre prontuários eletrônicos com sistemas veterinários, dados climáticos e epidemiológicos.

A SMED já construiu a arquitetura que suporta essa expansão — cloud nativo, APIs abertas, padrões internacionais como FHIR. O trabalho técnico está feito. O que falta é a decisão de política pública para avançar.

Para fechar: o HIS 2026 tem como proposta central discutir não apenas o que inovar, mas como fazer a inovação acontecer. Qual é a mensagem que a SMED leva para essa edição?

A mensagem é a mesma que defendo há anos, mas que o mercado agora está mais preparado para ouvir: inovação na saúde começa pela organização dos processos, não pela tecnologia.

Vinte e quatro anos trabalhando na gestão de hospitais públicos nos ensinaram que o maior problema não é falta de tecnologia — é falta de processo organizado para que a tecnologia funcione. Quando você resolve isso, tudo o mais se torna possível: prontuário único, IA, dados preditivos, One Health.

A SMED não vende software. Vende a combinação de conhecimento de gestão com capacidade tecnológica. É por isso que chegamos onde outros não chegam, a preços que o SUS pode pagar, com resultados que a acreditação reconhece.

Estaremos no HIS 2026 para mostrar que o futuro que o setor está debatendo já existe. No Estado de Sergipe, no Instituto Couto Maia, nas unidades que operam com a SMED hoje. Não como promessa — como prova.

Marcelo Mariani Andrade é engenheiro civil formado pela Poli-USP, MBA pela FGV-SP, e sócio-diretor presidente da SM Gestão Hospitalar, SM Consultoria, SMED Tecnologia da Informação e Concessionária Couto Maia S/A. Em 2013, liderou a assinatura de uma das primeiras PPPs hospitalares do Brasil — o Instituto Couto Maia, em Salvador/BA, hoje referência nacional como primeiro hospital público 100% sem papel.

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