Líderes e gestores da saúde enfrentam um desafio cada vez mais urgente: como oferecer um atendimento eficiente, sustentável e humanizado para uma população neurodivergente que está envelhecendo?
Um em cada cinco brasileiros é neurodivergente, de acordo com um levantamento realizado pela consultoria Caminho Atípico. Ou seja, pessoas com condições como TDAH, autismo, dislexia, transtornos sensoriais, por exemplo — muitas vezes sem diagnóstico ou apoio adequados. O total estimado é de 32 a 43 milhões de brasileiros neurodivergentes (cerca de 15% a 20% da população).
Apesar do avanço nas discussões sobre saúde mental e neurodivergência nos últimos anos, o impacto do envelhecimento e da longevidade dessa população ainda é negligenciado.
Esse foi o tema central do painel “Longevidade e Neurodivergência: Desafios de Sustentabilidade e Cuidado para o Futuro”, realizado no HIS 2026. Moderado por Amanda Gonçalves, jornalista do Saúde Business, a discussão e contou com Karyny Nascimento Ferro, psicóloga do Serviço de Longevidade do Instituto Jô Clemente, e Fabio Serpa, especialista em tecnologia e saúde e fundador da Vivantt.
Karyny alertou sobre a necessidade de repensar o modelo assistencial voltado para pessoas neurodivergentes, especialmente no contexto do envelhecimento. O sistema de saúde atual ainda não está preparado para lidar com as demandas específicas dessa população, segundo a psicóloga, o que compromete tanto a qualidade do atendimento quanto a sustentabilidade dos serviços.

“Precisamos de um modelo assistencial que antecipe as necessidades dessa população, com protocolos claros e planejamento a longo prazo. Não podemos esperar que os sinais de envelhecimento se manifestem para começar a agir. É fundamental iniciar o cuidado preventivo desde os 40 ou 50 anos, garantindo que essas pessoas tenham acesso a uma rede de saúde preparada para suas particularidades”, destacou Karyny.
Tecnologia e planejamento como aliados
Sob o aspecto da tecnologia, Serpa falou sobre o enorme potencial de ferramentas e da inteligência artificial na construção de um sistema de saúde mais eficiente e inclusivo. No entanto, ressaltou que é essencial começar pelo básico, como a criação de registros unificados e a implementação de protocolos específicos para pacientes neurodivergentes.

“Sem dados integrados e um histórico completo, corremos o risco de confundir características do espectro autista com comorbidades da idade ou outras condições clínicas. Isso não apenas compromete o diagnóstico, mas também aumenta os custos e reduz a eficiência do sistema”, explicou Serpa.
O envelhecimento da população neurodivergente traz implicações profundas para os sistemas de saúde, tanto no âmbito público quanto no privado. Os especialistas alertaram que, sem protocolos assistenciais específicos e uma abordagem integrada, os custos e as lacunas no atendimento tendem a aumentar.
Com a falta de um histórico unificado, a psicóloga explicou que aumenta o risco de errar diagnósticos e confundir características do espectro autista com comorbidades da idade ou outras condições clínicas.
“Muitas vezes, os profissionais não conseguem acessar informações básicas sobre o paciente, como restrições ou necessidades específicas. Isso pode levar a procedimentos desnecessários e até prejudiciais, simplesmente porque o sistema não avisa sobre os riscos ou particularidades do paciente”, alertou.
O papel dos gestores na transformação do cuidado
É preciso agir agora para preparar o sistema de saúde para os desafios do futuro. Isso inclui:
- Implementar protocolos assistenciais específicos: Garantir que os profissionais de saúde tenham diretrizes claras para atender pacientes neurodivergentes em todas as fases da vida.
- Investir em capacitação profissional: Desde a recepção até os especialistas, todos os envolvidos no atendimento devem estar preparados para lidar com as particularidades desse público.
- Adotar tecnologias inclusivas: Ferramentas como inteligência artificial, registros unificados e comunicação alternativa podem melhorar a eficiência e a personalização do cuidado.
Impactos no SUS e na saúde suplementar
A discussão também abordou os desafios que o envelhecimento da população neurodivergente impõe ao Sistema Único de Saúde (SUS) e à saúde suplementar.
“Hoje, a estrutura de saúde está muito voltada para a infância, mas precisamos olhar para o envelhecimento dessas pessoas. Isso inclui desde a adaptação das estruturas físicas até a capacitação dos profissionais para entender as características do autismo e da deficiência intelectual em diferentes fases da vida”, explicou Karyny.
A psicóloga destacou que, muitas vezes, o diagnóstico de pessoas neurodivergentes é superficial ou incompleto, o que dificulta o planejamento de cuidados a longo prazo.
“Ainda temos uma visão limitada, que associa tudo ao diagnóstico inicial, sem investigar outras questões clínicas ou sociais que podem impactar a qualidade de vida dessas pessoas”, disse.
O debate evidenciou a importância de um atendimento integral e multidisciplinar. “Não podemos trabalhar em caixinhas. O cuidado precisa envolver médicos, psicólogos, fisioterapeutas, musicoterapeutas, arteterapeutas e outros profissionais, sempre considerando o contexto social e familiar do paciente. A família, por exemplo, traz informações valiosas que podem ajudar no planejamento do cuidado”, afirmou Serpa.
A falta de integração entre os diferentes níveis de atenção à saúde é um obstáculo significativo. “Fala-se muito em integralidade no atendimento, mas, na prática, isso ainda é um desafio. Precisamos de uma rede de saúde que funcione de forma articulada, desde a portaria até a superintendência, para garantir que todos estejam alinhados e preparados para atender às necessidades específicas desse público”, alertou a psicóloga.
Sustentabilidade e análise preditiva
O equilíbrio entre sustentabilidade financeira e a necessidade de oferecer um atendimento individualizado para uma população extremamente heterogênea também foi discutido. Para Serpa, a análise preditiva e o uso de dados podem ser grandes aliados na redução de custos.
“Estudos mostram que idosos neurodivergentes têm até quatro vezes mais chances de desenvolver comorbidades. Se começarmos a trabalhar com prevenção e análise preditiva, podemos implementar ações que reduzam os custos tanto para o Sistema Único de Saúde (SUS) quanto para a saúde suplementar”, explicou Serpa.
O especialista ressaltou o papel da inteligência artificial nesse processo. “A IA é o futuro, mas só será eficaz se tivermos dados completos e registros unificados. Quando um paciente neurodivergente chega aos 65 anos, como vamos diferenciar o que é neurodivergência, o que é comorbidade da idade e o que é apenas uma característica individual? Sem dados, isso se torna impossível”, alertou.
Empatia e comunicação inclusiva
Além da tecnologia, Serpa ressaltou a importância de despertar empatia nos profissionais de saúde. “Capacitar as pessoas para entenderem as necessidades específicas dos pacientes neurodivergentes é fundamental. Não se trata apenas de tecnologia, mas de sensibilidade e humanidade no atendimento”, afirmou.
Nesse cenário, a comunicação inclusiva é essencial. “Precisamos de estratégias que permitam ao paciente expressar o que sente e entender o que está acontecendo ao seu redor. Isso inclui o uso de tecnologias simples, como símbolos e figurinhas, que podem ajudar na interação dentro das unidades de saúde”, explicou a psicóloga.
Karyny encerrou com um apelo à reflexão e à ação. “Estamos falando de pessoas, não de números. Precisamos de um sistema de saúde que enxergue o paciente como um todo, que valorize sua autonomia e que esteja preparado para oferecer um cuidado integral e humanizado. O futuro do cuidado começa agora, com as decisões que tomamos hoje”, concluiu.