A transformação digital ampliou a capacidade dos hospitais de coletar dados, mas isso não significa, necessariamente, que as instituições estejam conseguindo utilizá-los de forma estratégica.

Embora indicadores de qualidade façam parte da rotina das organizações de saúde há décadas, a comparação entre hospitais ainda esbarra em desafios como metodologias distintas, ausência de padronização e pouca transparência na divulgação dos resultados.

Em um cenário marcado pelo avanço dos modelos de remuneração baseada em valor, pela necessidade de aumentar a eficiência operacional e pela crescente exigência por segurança do paciente, o setor começa a adotar uma nova lógica de gestão. Indicadores deixam de ser apenas instrumentos de monitoramento e passam a orientar decisões estratégicas.

O Panorama Ahfip é um exemplo desse movimento. A iniciativa da Associação dos Hospitais Filantrópicos Privados de Excelência (Ahfip) reúne indicadores padronizados, auditados e comparáveis de qualidade e segurança hospitalar.

Mais do que apresentar indicadores, o projeto propõe uma metodologia que transforma dados em instrumentos de benchmarking, aprendizado entre instituições e melhoria contínua.

A primeira edição reúne dados referentes ao período de janeiro a junho de 2025 de dez hospitais filantrópicos associados. Todas as informações passaram por auditoria independente conduzida pelo Consórcio Brasileiro de Acreditação (CBA), responsável por validar tanto a metodologia quanto as bases primárias de dados utilizadas pelas instituições.

Para Wilson Pedreira, CEO da Ahfip, a iniciativa representa uma mudança na forma como a qualidade assistencial pode ser mensurada e utilizada para orientar decisões de gestão.

“A qualidade e a segurança não podem ser apenas conceitos abstratos, elas precisam ser mensuráveis. De 50% a 60% dos eventos adversos em hospitais são evitáveis, e o Panorama Ahfip nasce para jogar luz sobre esses processos, permitindo que a transparência guie a melhoria contínua e a sustentabilidade do setor”, afirma.

Benchmarking transforma indicadores em ferramenta de gestão

Historicamente, cada hospital desenvolveu seus próprios indicadores e mecanismos de acompanhamento da qualidade. Embora esse monitoramento seja essencial, ele nem sempre permite identificar se determinado resultado representa, de fato, um bom desempenho quando comparado a instituições com características semelhantes.

Para Sandra Cristine, gerente de Qualidade, Gestão de Risco Assistencial e Same do A.C.Camargo Cancer Center e líder do Grupo de Trabalho de Qualidade e Segurança da Ahfip, a padronização metodológica cria uma linguagem comum para analisar a assistência.

Com dados homogeneizados, auditados e comparáveis, os indicadores deixam de servir apenas ao acompanhamento interno e passam a apoiar processos estruturados de benchmarking e aprendizado coletivo.

“O principal ganho ao transformar os indicadores em uma base padronizada, auditada e comparável é sair de uma visão isolada para uma gestão orientada por benchmarking qualificado, permitindo comparar o desempenho entre hospitais de alta excelência”, destaca.

A proposta não é estabelecer rankings entre hospitais, mas compreender por que determinadas instituições obtêm melhores resultados e como essas experiências podem ser compartilhadas para elevar o desempenho de toda a rede.

O desafio não é medir qualidade, mas avaliar o valor do cuidado

Talvez o aspecto mais inovador do Panorama Ahfip seja a incorporação do conceito de pertinência assistencial, abordagem ainda pouco explorada em levantamentos nacionais.

Tradicionalmente, indicadores hospitalares concentram-se em medir desfechos, como mortalidade, infecções ou tempo de permanência. O Panorama amplia essa análise ao investigar também se os recursos utilizados foram apropriados para o perfil clínico de cada paciente.

Isso significa avaliar não apenas quantos dias um paciente permaneceu internado em uma UTI, mas também se havia indicação clínica para essa internação. Segundo Sandra, essa abordagem aproxima a gestão hospitalar de uma lógica baseada em valor, na qual eficiência e qualidade caminham juntas.

“A introdução do conceito de pertinência assistencial permite ir além da análise de desfechos, avaliando também se os recursos foram utilizados de forma adequada. A avaliação da pertinência permite identificar desperdícios, reduzir intervenções de baixo valor e fortalecer a sustentabilidade financeira das instituições sem comprometer a excelência assistencial”, explica a executiva.

Pedreira completa: “o diferencial está justamente em avaliar a adequação do cuidado”.

Indicadores contam histórias quando analisados em conjunto

O Panorama reúne métricas relacionadas à segurança do paciente, qualidade clínica e eficiência operacional. Entre elas, densidade de incidência de infecção de corrente sanguínea associada a cateter venoso central em UTI adulto; taxa de infecção de sítio cirúrgico; lesão por pressão adquirida durante a internação; quedas com dano; média de permanência hospitalar; permanência em UTI e Razão de Mortalidade Padronizada (SMR).

Mais do que observar cada indicador isoladamente, a proposta da Ahfip é analisar o conjunto das informações considerando o perfil assistencial de cada instituição.

Um exemplo é o SMR, indicador que compara a mortalidade observada com aquela esperada para pacientes com determinado nível de gravidade. Resultados inferiores a 1 indicam mortalidade abaixo da esperada, sugerindo melhor desempenho assistencial após o ajuste de risco.

De acordo com a associação, os hospitais participantes apresentaram resultados abaixo desse patamar, o que reforça o elevado padrão de qualidade das instituições e estabelece uma linha de base para futuras metas de melhoria contínua.

Transparência também passa pelo letramento do paciente

Além de apoiar a gestão hospitalar, o Panorama busca ampliar a transparência para pacientes, familiares, empresas e operadoras de saúde. Para Sandra, indicadores técnicos só cumprem plenamente seu papel quando conseguem ser traduzidos em informações claras, contextualizadas e relevantes para diferentes públicos.

“A promoção do letramento do paciente passa por traduzir indicadores técnicos, como SMR ou taxas de infecção, em informações claras, contextualizadas e relevantes para a tomada de decisão”, esclarece.

A associação pretende ampliar esse processo por meio de ações educativas e eventos voltados à saúde corporativa, de modo que diferentes públicos compreendam melhor como avaliar qualidade e segurança assistencial.

Compartilhar conhecimento gera aprendizado

O Panorama também foi concebido para transformar indicadores em instrumentos permanentes de aprendizado entre instituições.

Embora a publicação seja anual, os dados serão acompanhados continuamente nas reuniões do Grupo de Trabalho de Qualidade e Segurança da Ahfip, permitindo que experiências bem-sucedidas sejam rapidamente disseminadas entre os hospitais associados.

Para Pedreira, o maior valor do projeto está justamente na capacidade de acelerar a evolução coletiva.

“Não se trata apenas de publicar números, mas de criar metas reais. Quando um hospital do grupo atinge um indicador de excelência em um ponto onde outro precisa melhorar, abrimos espaço para a troca de conhecimento, melhores práticas, tecnologia e processos. É o setor filantrópico privado elevando a régua da saúde brasileira.”

Um movimento alinhado à evolução da gestão hospitalar

Mais do que reunir indicadores, o material evidencia uma mudança na forma de avaliar a qualidade hospitalar. A iniciativa demonstra que dados comparáveis, auditados e contextualizados são a base para uma gestão orientada por valor, aprendizado coletivo e melhoria contínua. Acesse o Panorama Ahfip!