O mundo atravessa uma verdadeira revolução da longevidade. Desde o início do último século, a expectativa de vida global aumentou mais de 40 anos, e o Brasil segue essa tendência. O envelhecimento populacional deixou de ser uma projeção futura e passou a ser um fator determinante para o planejamento econômico e social do Brasil. Essa urgência tem pressionado as lideranças de saúde, que se veem em uma corrida contra o tempo para criar novos modelos e estratégias de cuidado.
Atualmente, o Brasil conta com mais de 60 milhões de pessoas acima dos 50 anos. Segundo projeções do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica – IBGE, até 2050, cerca de 30% da população brasileira será composta por indivíduos com 60 anos ou mais. A recomendação da Organização Mundial da Saúde é um geriatra para cada 1mil idosos. Atualmente, o país tem 3.167 geriatras, o equivalente a 1,49 profissional por 100 mil habitantes. Isso representa 0,7 por cento das especialidades gerais, ou seja, um déficit de aproximadamente 28 mil geriatras.
Essa transformação demográfica está diretamente relacionada à resiliência organizacional, já que o envelhecimento populacional impacta de maneira expressiva a sustentabilidade financeira do sistema, abrangendo tanto a saúde pública quanto a suplementar.
No cenário atual, a média de idade das internações migrou para um perfil mais velho. Em UTIs adulto, a média é de 63 anos. Em enfermarias clínicas, 54,2. Além disso, o tempo de permanência da pessoa idosa pode ser até sete vezes maior que o de um adulto jovem.
O aumento da população idosa representa um fator que impacta os custos na gestão das empresas hospitalares, em razão do crescimento na busca por serviços e da maior incidência de doenças crônicas. Cada dia dentro de um hospital representa mais exames, mais risco de complicações e maior necessidade de equipe multiprofissional.
Nessa faixa etária, a necessidade por atendimentos também é grande fora dos hospitais. Segundo a Abramed, a frequência de exames por habitante cresce de forma exponencial a partir dos 50 anos, atingindo seu pico entre 70 e 79 anos, o que demonstra uma natural elevação da procura por serviços de medicina diagnóstica.
As projeções são claras: o envelhecimento e a maior complexidade do cuidado pressionam as despesas assistenciais. Pesquisas indicam que os gastos da saúde suplementar podem crescer quase 30% até 2060, e as despesas médias por diária de internação são dramaticamente mais altas para a população acima dos 59 anos.
Mas, segundo especialistas essa realidade pode ser diferente. Os valores tendem a diminuir quando o cuidado deixa de ser reativo e passa a ser contínuo. Quando prevenção, acompanhamento e atenção primária funcionam, o idoso interna menos, permanece menos tempo nos hospitais e vive com mais autonomia. Ou seja, procura assistencial existe e custos também. A diferença está em como cada país decide cuidar da sua população madura. O Brasil ainda tem espaço enorme para reduzir gastos simplesmente organizando melhor o acompanhamento ao longo da vida.
O envelhecimento da população impõe ao país a necessidade de se adaptar às demandas crescentes desse público. E a saúde desponta como um dos pilares essenciais a serem reestruturados, garantindo um envelhecimento ativo, saudável e produtivo.
Mudança do modelo de cuidado (gestão do risco, não da crise)
Países que antes possuíam populações predominantemente jovens estão vivenciando uma inversão na pirâmide etária. Essa transformação demanda adaptações estruturais e traz implicações econômicas relevantes, uma vez que a longevidade desafia os sistemas de previdência e exige que o mercado de trabalho se ajuste para integrar de forma eficaz trabalhadores mais experientes.
Segundo Willians Fiori, especialista em longevidade, membro da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e da Sociedade Brasileira de Gerontotecnologia e professor docente dos cursos de Pós Graduação do Hospital Israelista Albert Einstein, para responder a um país que envelhece, precisamos implementar uma cultura gerontológica com excelência operacional.
Para enfrentar esses desafios, Fiori destaca cinco pilares fundamentais:
- Educação e conscientização
Promover uma visão positiva sobre o envelhecimento, combatendo estigmas e preconceitos. Isso inclui educar a sociedade sobre as necessidades e as potencialidades da terceira idade, além de incentivar o respeito e a valorização dos idosos. - Saúde preventiva e manejo de crônicos
Investir em atenção primária forte e em estratégias de prevenção para que as pessoas cheguem à velhice com melhores condições de saúde. O manejo de doenças crônicas e a reabilitação são pilares fundamentais para garantir qualidade de vida. - Integração entre saúde e assistência social
Criar sistemas integrados que conectem serviços de saúde e assistência social, garantindo suporte contínuo e personalizado para os idosos. Isso inclui cuidados domiciliares, centros de convivência e programas de apoio comunitário. - Tecnologia e inovação
Utilizar tecnologias para monitoramento, suporte e cuidado dos idosos, como dispositivos de saúde conectados, plataformas digitais de acompanhamento e soluções que promovam autonomia e segurança. - Formação profissional especializada
Capacitar profissionais em áreas como geriatria, gerontologia e gerontotecnologia, garantindo que estejam preparados para atender às demandas específicas de uma população envelhecida.
Experiência global
Ao falar em saúde aplicada à longevidade, temos bons exemplos pelo mundo. O Japão é a referência mais madura nesse cenário. O país estruturou um modelo baseado em prevenção, gestão de crônicos, suporte ao cuidador e uso de tecnologia. “Não é uma adaptação pontual, é uma mudança cultural profunda. É justamente a união de grandes forças emergentes da longevidade e do papel decisivo da inteligência geracional para compreender a nova configuração social”, reforça Fiori.
Para alcançar esses resultados, é fundamental que o envelhecimento seja tratado como planejamento nacional e não como impacto hospitalar. Essa metodologia já funciona em países da Europa, como Holanda, França, Alemanha e nos países nórdicos. Investem na integração de saúde e assistência social, reabilitação, qualificação multidisciplinar e políticas de cuidado continuado. Para isso, estruturaram um modelo baseado em sistemas de saúde robustos, ambientes urbanos adaptados, programas de inclusão social para idosos e atenção primária forte.
Nos Estados Unidos, foi criado um laboratório de pesquisa multidisciplinar do Massachusetts Institute of Technology (MIT), o MIT AgeLab , focado em entender e inovar de acordo com a expectativa de longevidade e estilos de vida intergeracionais. Eles abordam o envelhecimento não só como um desafio médico, mas como uma fase de vida a ser reinventada, explorando áreas como finanças, transporte, moradia e tecnologia para criar soluções que beneficiem todas as idades. A iniciativa defende que envelhecimento não é apenas um problema médico e foca no aprendizado contínuo e bem-estar ao longo de todo o ciclo de vida.
A relação entre longevidade, saúde e economia
Vale ressaltar que mesmo com boas referências mundiais, o Brasil envelhece diferente. De acordo com especialistas da área, o tripé longevidade, saúde e economiadefine o futuro do país. A chamada “economia da longevidade” é considerada a maior revolução silenciosa e gera impacto em diversos setores: indústria farmacêutica, mercado alimentar, varejo de saúde, turismo, serviços financeiros, tecnologia e moradia. Além disso, é o principal motor da discussão sobre a sustentabilidade do nosso sistema de saúde.

“Nesse conceito, o desafio não é mais ganhar anos de vida e sim dar vida, saúde e funcionalidade aos anos que já ganhamos.”, ressalta Fiori. Uma conta simples nos ajuda a entender a importância desse cuidado. Do nascimento de um bebê até atingir a maioridade são cerca de 8 mil dias. Da chegada à vida adulta até os quarenta anos são mais 80 mil dias. Dos quarenta aos noventa anos acrescentamos aproximadamente 18.250 dias. Esse bloco final é justamente o que mais cresce e o que menos planejamos.
No Brasil, a cada vinte segundos nasce uma nova pessoa que entra no grupo dos 50 mais. Atualmente, são 60 milhões de brasileiros maduros. Esse número supera a população inteira de França, Argentina, África do Sul e Espanha. E equivale a 15 vezes a população do Uruguai. Mesmo com o impasse de renda per capita, temos um volume de idosos enorme que influencia consumo, trabalho, saúde e serviços.
Perspectivas e possibilidades
Outro ponto a ser considerado no país é a desigualdade social que representa um dos principais entraves nesse processo. A ausência de atendimento adequado e de ações preventivas faz com que parte da população envelheça com problemas de saúde, intensificando a sobrecarga de um sistema de saúde já saturado.
De acordo com Fiori, nesse contexto é fundamental mobilizar esforços emergentes para garantir que a população alcance a faixa etária avançada em melhores condições de saúde. “Precisamos abandonar a visão do envelhecimento como um tabu ou problema e trabalhar para que seja um processo saudável, promovendo a criação de ambientes e serviços mais inclusivos e funcionais para todas as gerações”, destaca.
Embora a longevidade traga desafios significativos, como a necessidade de reformar sistemas de saúde e previdência, ela também oferece oportunidades únicas para a inteligência geracional e o desenvolvimento de políticas públicas inovadoras e para a criação de uma sociedade mais inclusiva e sustentável. Investir em educação ao longo da vida, promover a saúde preventiva e incentivar a participação ativa dos idosos na economia e na sociedade são estratégias fundamentais para transformar a longevidade em um motor de progresso.
O papel da medicina diagnóstica
O fato das pessoas viverem mais também é uma conquista do avanço da medicina diagnóstica, acompanhado de políticas adequadas, segundo Milva Pagano, diretora-executiva da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed). Entretanto, o envelhecimento está diretamente associado a um aumento significativo na prevalência de doenças crônicas, o que leva ao crescimento da demanda e das despesas assistenciais.
Estimativas apontam que os custos da saúde suplementar podem aumentar cerca de 30% até 2060, com as despesas médias por diária de internação sendo significativamente mais elevadas para pessoas com mais de 59 anos. “É aqui que a medicina diagnóstica atua como um elemento estratégico: ao antecipar riscos e fornecer dados precoces, agindo como um instrumento de resiliência social e como uma estratégia econômica vital, garantindo que o sistema de saúde não colapse sob o peso do tratamento de doenças em estágios avançados”, afirma a diretora.
Milva esclarece ainda que quando a população vive mais tempo com saúde, trabalha mais, consome mais, consequentemente reduz a pressão no sistema. Entretanto, quando vive sem suporte, sem prevenção e sem redes bem estruturadas, os custos aumentam e a economia sente. “Longevidade é saúde. Saúde é economia. E o Brasil só vai avançar quando tratar esses temas como partes do mesmo projeto”, complementa.
Um dos desafios desse processo de prevenção são as DCNTs – Doenças Crônicas Não Transmissíveis. A hipertensão, diabetes, cardiopatias, alterações osteoarticulares, doenças renais, depressão e declínio cognitivo, por exemplo, não se resolvem em pronto atendimento, são ativas na saúde dos brasileiros e exigem um cuidado contínuo e direcionado.
Esses problemas se somam às sete síndromes geriátricas que norteiam o cuidado moderno: quedas, incontinências, imobilidade, polifarmácia, síndromes demenciais, osteoporose e delirium. Quando essas condições ocorrem simultaneamente, o impacto sobre a funcionalidade, autonomia e qualidade de vida aumenta de forma significativa.
O diagnóstico prévio e preciso se torna o fator determinante para a eficácia desse manejo, permitindo que as intervenções sejam feitas na fase inicial e evitando a progressão para quadros mais complexos e de altíssimo custo, garantindo mais segurança e qualidade de vida para o brasileiro.
“Na medicina diagnóstica, isso significa um protagonismo crescente, transformando-a em um instrumento de resiliência social para auxiliar empresas e o poder público a mapear vulnerabilidades e planejar a mitigação de riscos, garantindo que o cuidado com as pessoas e a sustentabilidade sejam a base das estratégias de negócio”, pontua Milva.
É preciso “recalcular a rota”
O setor da medicina diagnóstica ultrapassou a marca de 2,5 bilhões de exames laboratoriais, em 2024, registrando uma alta de 15,7% em relação ao ano anterior. A análise clínica continua sendo a categoria de maior volume. Os exames de imagem, por sua vez, cresceram 43,4% e seguem a linha de crescimento assim como a ascenção do envelhecimento da população no país. E para acompanhar o caminho da revolução da longevidade, é essencial que o setor não perca seus pilares: a revisão de protocolos médicos, o planejamento focado na prevenção e o investimento em inovação.
Para a diretora da Abramed, o aumento da longevidade impõe que revisitemos e reescrevamos os parâmetros médicos, pois precisamos desenvolver uma medicina capaz de contemplar as especificidades farmacocinéticas e laboratoriais da população mais avançada. “O diagnóstico, nesse contexto, se estabelece como a primeira linha de preparação e sustentabilidade, atuando como uma ferramenta de prevenção para prever e mitigar quadros mais críticos.”
O compromisso dos gestores com a inovação deve ser constante nesse cenário. O investimento em novas tecnologias como inteligência artificial, big data e plataformas digitais para diagnósticos mais ágeis são importantes nesse processo. “Além disso, a integração entre os sistemas público e privado de saúde é um instrumento de resiliência social e sustentabilidade financeira para lidar com a complexidade das múltiplas comorbidades do envelhecimento”, alerta Milva.
O papel da medicina preventiva
Prevenir vai além de evitar doenças; trata-se de garantir autonomia, qualidade de vida e funcionalidade, especialmente em populações mais velhas. Segundo especialistas, é preciso investir em prevenção personalizada e reconhecer as diferenças entre as quatro gerações que compõem o grupo cinquenta mais. Cada faixa etária apresenta perfis, patologias, valores e necessidades distintas, e tratar essa população como um bloco homogêneo significa desperdiçar recursos e oportunidades de intervenção precoce.
“Uma pessoa de cinquenta vive uma realidade completamente distinta de alguém de sessenta, setenta, oitenta ou noventa. Cuidar dessa população como se fosse um bloco único é desperdiçar tempo, recursos e oportunidades de intervenção precoce”, explica Fiori.
Iniciativas como as do Fleury, que investe em modelos de cuidado preventivo e acompanhamento ampliado, e do Age Health Center, com sua abordagem integrada e personalizada da longevidade, mostram que a prevenção está sendo colocada em prática no país.
Esses exemplos reforçam a importância de uma atenção primária de excelência ao idoso, monitorando aspectos como fragilidade, cognição, mobilidade e adesão aos tratamentos, para evitar que ele seja negligenciado até o surgimento de emergências.
Essa abordagem integrada e personalizada não apenas otimiza os recursos disponíveis, mas também promove uma visão mais humana e sistema diante do envelhecimento populacional.
Para Fiori, os setores da saúde precisam funcionar como uma rede viva. “Concentrar esforços apenas na gestão de crises para lidar com essas situações resulta em internações recorrentes, custos elevados e aceleração da perda funcional. A solução mais eficaz é outra: atenção primária estruturada, prevenção contínua, reabilitação frequente, orientação ao paciente, monitoramento farmacêutico, suporte familiar e redes integradas de cuidado”, ressalta o especialista.
Mudança do modelo de cuidado (gestão do risco, não da crise)
O Brasil aparece em destaque no livro Longevity HUB, publicado pelo MIT. O país é citado como referência por conta do grupo de estudos Longevity Envelhecimento 2.0, que conecta academia, inovação e aplicação prática. Isso mostra que existe aqui um movimento intelectual consistente, reconhecido internacionalmente.
A necessidade de mudança na condução do envelhecimento já está no radar de alguns gestores de saúde do Brasil. A rede Prevent Senior foi uma das primeiras a enxergar o potencial da longevidade no país e a iniciar esse movimento. Atualmente, atendem mais de 560 mil beneficiários. Segundo Fiori, a estratégia nesse caso foi de antecipar a lógica da atenção integral para adultos maduros e criar um modelo de cuidado contínuo. “Mesmo ainda sem atingir a excelência para o plano da longevidade e independentemente das polêmicas, os idealizadores da empresa se anteciparam nesse mercado.”
Outro exemplo, também em São Paulo, que surgiu recentemente é Age Health Center. O primeiro centro brasileiro de medicina do envelhecimento personalizada que tem finalidade acompanhar e potencializar cada fase da vida humana. A proposta é trabalhar por décadas de vida, a partir dos trinta anos, com foco na prevenção, ciência, análise de risco e cuidado longitudinal.
O Fleury, por sua vez, anunciou a inauguração de uma unidade premium em 2026, que terá como tema central a longevidade, no contexto da comemoração dos 100 anos da companhia em São Paulo. De acordo com a diretoria, a operação ficará dentro de uma nova grande unidade da bandeira Fleury. Nos últimos anos, a marca fez novas aquisições, com destaque para a compra do laboratório Hermes e Pardini e a mais recente delas, do Femme.
Apesar desses avanços, estamos longe de alcançar o modelo ideal de envelhecimento no país que agrege ciência, prevenção, continuidade e propósito. A falta de um ecossistema de saúde é um dos nossos maiores desafios. “O Brasil está no caminho. Mas o caminho precisa ganhar maturidade, velocidade e coragem. A longevidade já é o motor silencioso da saúde no país. O que definirá o futuro é quem vai olhar para isso como investimento estratégico e quem ainda vai tratar como tendência passageira”, provoca Fiori.
Investimento em tecnologias: IA E IOT na longevidade
As novas tecnologias tem revolucionado o setor da saúde, trazendo avanços significativos em diversas áreas. Na longevidade, não é diferente! A internet das coisas (IoT) e inteligência artificial (IA) ampliam a capacidade de cuidado, a produtividade das equipes e a qualidade das decisões e garantem sustentabilidade financeira.

Estudos revelam que soluções tecnológicas geram impacto positivo em várias frentes. Elas permitem analisar grandes volumes de dados, apoiar a interpretação de exames, reduzir erros em escolhas terapêuticas e até diminuir fraudes na saúde suplementar, que é um problema crescente no país.
Para a população madura, o papel da tecnologia é ainda mais relevante. Idosos enfrentam múltiplas condições crônicas, consomem medicamentos variados, apresentam maior sensibilidade a pequenas alterações clínicas. A utilização de sensores e dispositivos conectados, por exemplo, permitem o monitoramento, aumentam a segurança e previnem internações evitáveis.
Além disso, essas ferramentas contribuem para a eficiência das práticas diárias dos profissionais de saúde, ao identificar padrões, prever riscos, otimizar condutas e oferecer uma visão mais rápida e precisa da situação clínica. Isso reduz a carga de trabalho da equipe e melhora os resultados do cuidado, o que ajuda a promover a integração do ecossistema assistencial.
A telemedicina complementa essa rede. Garante acesso mais ágil, acompanhamento contínuo e orientações rápidas para pacientes e cuidadores. “Tecnologia bem aplicada não substitui pessoas. Ela potencializa o que profissionais e famílias conseguem fazer. E, na longevidade, esse ganho faz diferença direta na vida, na autonomia e na segurança de milhões de brasileiros”, afirma Fiori.
O papel dos gestores na longevidade
Para atingir a excelência no modelo de longevidade é preciso também estratégia nacional unificada. O Brasil tem profissionais competentes, centros de excelência e práticas inovadoras, mas ainda falta a integração na saúde. “Os países que avançaram adotaram uma cultura gerontológica, compreenderam as forças emergentes da longevidade e aplicaram inteligência geracional para redesenhar políticas, serviços e modelos de cuidado. Sem esse entendimento, nenhum sistema consegue acompanhar um país que envelhece tão rápido quanto o nosso”, esclarece Fiori.
Nesse momento, o país enfrenta a necessidade de uma formação profissional direcionada à longevidade, além de maior integração entre assistência, prevenção, inovação e políticas públicas que transformem dados em ações concretas. É essencial incorporar a longevidade no planejamento de hospitais, operadoras, clínicas, farmacêuticas e instituições de cuidado.
A educação continuada também precisa ser incentivada com discussões sobre temas quase invisíveis, como idosos com autismo ou condições raras. Isso exige criar redes e hubs de cuidado que integrem iniciativa privada, saúde suplementar, hospitais, escolas de saúde, entidades de classe e governos.
Além disso, é fundamental que a integração entre o Sistema Único de Saúde (SUS) e a saúde suplementar se fortaleça para que o planejamento e a gestão das políticas de saúde para a população idosa sejam eficazes e universais.
O SUS desempenha um papel central no atendimento à população, a pressão sobre os recursos financeiros é ainda mais evidente. A arrecadação tributária, que sustenta o Sistema, não tem acompanhado o ritmo do envelhecimento populacional, criando um descompasso entre a oferta e a demanda por serviços de saúde.
O envelhecimento da população também representa um risco estratégico para o setor privado, especialmente para operadoras de planos de saúde. O aumento da sinistralidade, ou seja, dos custos com atendimentos médicos em relação às receitas obtidas, tem levado muitas empresas a reajustarem preços ou a enfrentarem dificuldades financeiras. Para os indivíduos, isso se traduz em mensalidades mais altas e, muitas vezes, em exclusão do acesso a planos privados, pressionando ainda mais o sistema público.
Portanto, a longevidade deixou de ser apenas um desafio assistencial e passou a ser um risco estratégico e financeiro que exige respostas coordenadas e inovadoras. É fundamental que o Brasil invista em políticas públicas que promovam a sustentabilidade do sistema de saúde, incentivem a prevenção e o envelhecimento saudável, e garantam o acesso equitativo a cuidados de qualidade. Somente assim será possível transformar o envelhecimento populacional em uma oportunidade para o desenvolvimento social, em vez de um fardo insustentável.
O poder público – Executivo e Legislativo – precisa estar alinhado para criar consensos duradouros e fortalecer agências reguladoras, dialogando com o conhecimento técnico para traduzir desafios em políticas públicas concretas, somando-se ainda os serviços de cuidados de longa duração e o aumento na formação de profissionais especializados em geriatria e gerontologia.