A transformação do ciclo de receita hospitalar deixou de ser uma discussão restrita à automação de tarefas e passou a ocupar um espaço estratégico dentro das instituições de saúde. Em um setor marcado por margens pressionadas, múltiplas fontes pagadoras, regras distintas de faturamento e maior necessidade de geração de caixa, o desafio agora está em organizar processos, reduzir perdas e transformar dados operacionais em decisões financeiras mais precisas.

Esse foi o tema de mais um episódio do Podcast Hospitalar: Estúdio Saúde Business, gravado diretamente da Hospitalar 2026, com a participação de Rafael Cordeiro, CFO do Grupo Mater Dei, e Elisabete Atkinson, diretora de Professional Service da Intuitive Care. Na conversa, os executivos destacaram que a eficiência financeira hospitalar depende menos de soluções isoladas e mais de uma jornada de padronização, rastreabilidade e governança, capaz de conectar produção assistencial, faturamento, conciliação, gestão de glosas e conversão de receita em caixa.

Da produção ao caixa: o novo olhar para o ciclo de receita

Para Rafael Cordeiro, uma das principais viradas de chave no Grupo Mater Dei foi compreender que produzir mais não significa, necessariamente, gerar mais caixa. Com a abertura de capital do grupo, em 2021, a companhia passou a ter uma exigência maior de revisão de processos, demonstração de resultados e acompanhamento da conversão da receita.

O executivo explicou que, antes, a operação era muito apoiada na lógica da produção e das notas fiscais. Com o amadurecimento da gestão financeira, tornou-se necessário observar o ciclo completo: o que foi produzido, o que foi faturado, o que sofreu glosa, o que foi conciliado e, finalmente, o que entrou no caixa.

Segundo ele, esse olhar revelou pontos de perda ao longo de diferentes etapas da operação. “A análise do ciclo da receita é quanto a sua receita vira caixa”, afirmou durante o episódio.

Na prática, o desafio passou a ser quebrar o processo em partes menores, identificar gargalos e entender onde a operação precisava ganhar mais controle. Em um grupo com nove hospitais, mais de 2 mil leitos e expansão prevista para São Paulo, a escala também tornou mais urgente a necessidade de processos menos dependentes de execução manual.

Padronizar antes de automatizar

Do lado da Intuitive Care, Elisabete Atkinson destacou que a complexidade do ciclo de receita cresceu mais rápido do que a evolução dos processos operacionais dos hospitais. As instituições passaram a lidar com mais transações, mais exigências regulatórias, mais dados cadastrais e mais regras específicas de operadoras, mas muitas ainda operam com fluxos baseados em validações humanas, conhecimento tácito e práticas antigas.

Para ela, esse modelo se torna insustentável quando a operação ganha escala. Cada operadora tem regras, formatos e métodos próprios, o que dificulta a previsibilidade e aumenta o risco de falhas quando não há uma camada de governança sobre o processo.

Por isso, a automação não deve ser o primeiro passo. Segundo Elisabete, antes de aplicar tecnologia, é preciso entender a operação, mapear os fluxos, identificar padrões possíveis e definir quais regras podem ser transformadas em motores automatizados.

A executiva também ressaltou que a transformação só avança quando a instituição está disposta a mudar processos. Não se trata de encaixar uma ferramenta em uma rotina antiga, mas de rever a forma como o trabalho é organizado para que a tecnologia consiga gerar escala, segurança e previsibilidade.

Dados estruturados abrem caminho para previsibilidade e IA

A entrevista também mostrou que a digitalização do ciclo de receita não tem impacto apenas operacional. Quando os dados são conciliados e organizados, eles passam a apoiar decisões estratégicas, como renegociações com operadoras, análise de rentabilidade de procedimentos, gestão de glosas e avaliação de novos modelos de remuneração.

No Grupo Mater Dei, Rafael destacou que os novos modelos de remuneração representavam cerca de 9% da receita em 2021. Hoje, já passam de 50%. Para o executivo, essa mudança reforça a importância de ter dados confiáveis para entender melhor custos, resultados e acordos com fontes pagadoras.

A inteligência artificial também apareceu como uma próxima etapa dessa jornada. Elisabete explicou que o mercado busca sair de uma lógica reativa, baseada em olhar para erros passados, para uma lógica mais preditiva, capaz de antecipar alertas operacionais e indicar problemas antes que eles impactem o resultado financeiro.

Mas, para isso, a base precisa estar pronta. Sem dados sólidos, cadastros organizados, integração entre sistemas e governança sobre o processo, os insights gerados por IA podem não refletir a realidade da operação.

Transformação financeira também exige mudança cultural

Além da tecnologia, Rafael Cordeiro destacou que a transformação do ciclo de receita exige resiliência, trabalho e abertura para mudança. Segundo ele, não existe fórmula pronta para aplicar em todas as instituições, já que cada hospital tem especificidades, operadoras, contratos e processos próprios.

Um dos avanços observados no Mater Dei foi a melhora no diálogo entre áreas. Com mais visibilidade sobre os dados e sobre o impacto de cada etapa no resultado final, as equipes passaram a colaborar mais e a reduzir a lógica de responsabilização entre setores.

Para o executivo, o caminho passa por enfrentar o tema de forma estruturada, com liderança envolvida, processos claros e disposição para revisar práticas consolidadas. A transformação, nesse caso, não está apenas em automatizar o que já existe, mas em redesenhar o ciclo para que a operação financeira seja mais previsível, integrada e orientada por dados.

A entrevista completa com Rafael Cordeiro e Elisabete Atkinson está disponível no canal do Portal Saúde Business no YouTube.