Tenho pensado cada vez mais em uma forma diferente de analfabetismo.

Não é o analfabetismo de quem não sabe ler ou escrever. Também não é simplesmente o analfabetismo digital de quem tem dificuldade para utilizar um computador, navegar na internet ou operar um aplicativo. É algo mais profundo.

Estamos diante de pessoas tecnicamente competentes, academicamente preparadas, experientes e, muitas vezes, ocupando posições relevantes nas organizações — mas que começam a apresentar enorme dificuldade para compreender, absorver e acompanhar a velocidade das mudanças ao seu redor.

Eu chamaria de analfabetismo exponencial. A Era Exponencial não exige apenas novos conhecimentos. Ela exige uma nova capacidade de interpretar o mundo.

Durante décadas, fomos treinados para pensar de maneira relativamente linear: estudar, adquirir conhecimento, aplicar esse conhecimento durante alguns anos, acumular experiência e transformar experiência em autoridade.

Esse modelo está sendo profundamente pressionado. Hoje, parte do conhecimento envelhece antes mesmo de se transformar em experiência consolidada.

Inteligência artificial, agentes autônomos, automação, robótica, computação em nuvem, biotecnologia, dados em tempo real e novos modelos de negócio estão comprimindo ciclos que antes levavam anos.

É por isso que, para mim, a questão central deixou de ser: “quanto você sabe?” E passou a ser: “quão rapidamente você consegue aprender, desaprender e reaprender?”

O risco para a saúde

Na saúde, esse fenômeno pode ser particularmente perigoso. Temos organizações extremamente complexas, reguladas, intensivas em conhecimento e que dependem de profissionais altamente especializados.

Mas especialização não garante capacidade de adaptação. Um gestor pode compreender profundamente a operação hospitalar e, ainda assim, não entender o impacto dos agentes de IA.

Um médico pode ser extraordinário em sua especialidade e desconhecer completamente o potencial da inteligência artificial para apoiar a tomada de decisão, a documentação e o acompanhamento longitudinal do paciente.

Um profissional de tecnologia pode dominar infraestrutura e sistemas tradicionais, mas permanecer preso a arquiteturas concebidas para uma realidade que está desaparecendo.

O problema não é desconhecer uma determinada ferramenta. É perder a capacidade de interpretar a transformação.

Novos sinais de analfabetismo

Começo a perceber alguns sintomas recorrentes. Pessoas que dizem:

“Isso sempre foi feito assim.”/ “Essa tecnologia ainda não está madura.”/ “IA é apenas uma moda.”/ “Nosso setor é diferente.”/ “Primeiro precisamos resolver todos os problemas atuais.”

À primeira vista, parecem argumentos prudentes. Algumas vezes, são. Mas também podem esconder algo mais preocupante: a incapacidade de imaginar um modelo operacional diferente daquele que conhecemos.

E talvez esse seja um dos maiores riscos para as organizações. Porque o analfabeto exponencial não necessariamente rejeita a tecnologia. Ele pode utilizar Teams, WhatsApp, prontuário eletrônico, dashboards e até inteligência artificial, mas continua raciocinando com a lógica do século passado.

Digitaliza o processo sem redesenhá-lo. Automatiza a burocracia sem questioná-la. Compra tecnologia sem transformar o modelo de trabalho. Chama isso de transformação digital.

O conhecimento deixou de ser estoque

Durante muito tempo, tratamos o conhecimento como patrimônio acumulado. Na Era Exponencial, o conhecimento precisa ser tratado também como fluxo. Isso muda tudo.

A carreira deixa de ser construída apenas pelo que aprendemos no passado e passa a depender da nossa velocidade de atualização.

A experiência continua extremamente valiosa, mas somente quando permanece conectada à curiosidade. Caso contrário, a experiência pode se transformar silenciosamente em resistência. É uma provocação desconfortável, mas necessária: algumas das pessoas mais experientes das organizações podem também ser aquelas com maior dificuldade para perceber que o mundo mudou.

Não porque sejam menos inteligentes, mas porque modelos mentais bem-sucedidos são difíceis de abandonar.

O novo alfabetizado

Acredito que o profissional preparado para os próximos anos precisará desenvolver algumas competências diferentes.

Precisará saber fazer boas perguntas. Compreender minimamente dados e inteligência artificial. Trabalhar com máquinas inteligentes como extensão de sua capacidade cognitiva. Transitar entre disciplinas. Conviver com versões provisórias do conhecimento. E, principalmente, precisará aceitar uma realidade desconfortável: nunca mais estaremos completamente preparados.

Aprender continuamente deixará de ser um diferencial. Será infraestrutura profissional.

O desafio das lideranças

Vejo uma responsabilidade enorme das lideranças da saúde. Não podemos limitar nossos programas de desenvolvimento a cursos sobre novas ferramentas. Precisamos desenvolver capacidade adaptativa. Precisamos criar organizações onde aprender seja parte do trabalho.

Onde experimentar seja permitido; perguntas novas tenham espaço; profissionais possam revisar convicções sem que isso seja interpretado como fraqueza.

Porque talvez o maior risco da Era Exponencial não seja a tecnologia avançar rápido demais. Talvez seja nós continuarmos aprendendo devagar demais. A próxima década provavelmente produzirá uma divisão muito menos óbvia do que imaginamos. Não será simplesmente entre quem usa tecnologia e quem não usa.

Será entre aqueles que desenvolveram capacidade permanente de adaptação e aqueles que continuaram tentando proteger modelos mentais construídos para um mundo que deixou de existir.

E essa, para mim, é uma discussão urgente para a saúde brasileira. Estamos investindo bilhões em tecnologia. Mas talvez precisemos investir ainda mais em algo anterior a ela: a capacidade humana de compreender o novo mundo que estamos construindo.

Porque, na Era Exponencial, não saber ler as mudanças pode se tornar tão limitante quanto não saber ler palavras.