Há muito tempo estudo o tema, mas com foco maior na relação dos médicos – individualmente ou através de suas entidades – com as indústrias de medicamentos e de tecnologias. Em edição de 2011 da Revista Ser Médico, escrevi este texto para o CREMESP – uma síntese do que penso com alguma convicção. Três situações fizeram-me refletir de forma mais ampla agora:

– A divulgação em rede social de imagem comentada onde representantes de um hospital renomado festejavam a conclusão de um protocolo institucional para prevenção de tromboembolismo venoso. Não havia nenhum médico do corpo clínico presente na foto ou destacado no texto. Havia um agradecimento a consultor ligado à indústria farmacêutica. Ilustrava parceria oficial do hospital com fabricante de medicação usada para profilaxia.

– Uma matéria publicada em The New Yorker, Who is responsible for the pain-pill epidemic?, onde anunciam que o programa educacional para o gerenciamento de dor da Joint Commission foi desenhado com a indústria farmacêutica.

– Outra matéria, publicada terça-feira pela Folha de São Paulo, divulgando que projeto de lei aprovado na Câmara liberou venda de remédios para emagrecer, inclusive as anfetaminas. Ou seja, políticos, com seus próprios conflitos, financiamentos de campanhas, decidindo no lugar de técnicos.

Foi quando percebi ainda melhor a complexidade do tema na saúde moderna… e várias reflexões, dúvidas e questionamentos vieram-me a mente, entre eles:

– Bons hospitais precisam de apoio externo direto justamente da indústria de medicamentos e tecnologias para elaboração de protocolos locais? Escrevi mais sobre isto tempos atrás em Evidence Biased Medicine, mas sem refletir exatamente sobre a não participação do corpo clínico.