Quando ocorre uma internação hospitalar, a alta é um processo experimentado por todo paciente que não vem a falecer. Tratada como algo banal, não deveria ser. É uma etapa crítica do processo de assistência!
Após as altas hospitalares, cerca de metade dos pacientes experimentam ao menos um erro relacionando à assistência a saúde, mais comumente de medicamentos. Parte destes pacientes sofre eventos adversos evitáveis, atribuídos a uma programação de alta inexistente ou mal feita.
Há falta de uma sistematização da seqüência de seguimento que a pessoa deve ter no sistema de saúde fora do hospital. Quase metade dos pacientes norte-americanos tem exames que ainda estão pendentes no momento da liberação do hospital e muitos (mais da metade em uma avaliação) se perdem em falhas de processos. Numerosos estudos internacionais demonstraram ainda o quanto falham nossos sumários de alta em disponibilizar informações essenciais para um adequado follow up. Mudanças em medicações nas admissões e nas altas são sempre bastante comuns e fontes de muitos riscos. A comunicação entre os dois mundos é problemática, levando a erros na assistência, danos, readmissões, aumento de custos…
E no Brasil, será que está questão é também importante? Avaliemos usando readmissões como exemplo:
O sistema de serviços hospitalares brasileiro apresenta relevante taxa de readmissão, independente da fonte de financiamento e do local de ocorrência, que aponta para a necessidade de buscarmos conhecer os fatores contribuintes e soluções possíveis. É o que escancarou recente tese de doutorado de Marizélia Leão Moreira (São Paulo, 2010), onde se analisou internações hospitalares durante um ano no país e as readmissões em até um ano após. Os dados iniciais ultrapassaram 27 milhões de registros, oriundos dos sistemas de internações SUS (SIH) e de internações não SUS (CIH). Foram selecionados 10.332.337 indivíduos para o estudo, totalizando 12.878.422 internações.
Em um recente evento em Terezina, no Piauí, onde eu apresentava a Medicina Hospitalar (MH) como possibilidade para três hospitais do sistema público da região, fui questionado por um colega sobre o calcanhar de Aquiles da MH norte-americana: a descontinuidade entre hospital e atenção primária. O assunto é polêmico por lá. Respondi com outra pergunta e comentário: -“Mas como é por aqui? Esta continuidade, com a mesma pessoa ou grupo prestando assistência em cada um destes “mundos”, existe no sistema que abrange os hospitais em discussão? Pois no Rio Grande do Sul, tchê, está quebra existe no sistema público e sem hospitalistas. E já conheci a coisa assim quando ingressei na faculdade de Medicina”. “Eeeeé, aqui já existe também”, aceitou o colega, ilustrando como isto, então, é um falso obstáculo para a MH no Brasil.