“As fabricantes de medicamentos estão abandonando intermediários para vender diretamente aos pacientes”, foi a manchete do “The Wall Street Journal” de 8 de dezembro de 2025. Era um editorial impactante para as cadeias globais de saúde, embora elas já acompanhassem essa progressão nos últimos 18 meses. “Direct-to-Patient” (DTP) é o nome do modelo, uma ciclópica e acelerada empreitada adotada por mais de 90% da indústria farmacêutica global. Não se trata apenas de um “modismo importado”, mas de um motor infraestrutural escalável, superalavancado pelas Inteligências Artificiais (IAs) e com disrupção direta para os Sistemas de Saúde (públicos e privados).

Quando a indústria farmacêutica percebe que o paciente está cada vez mais à deriva, acessando a saúde por meio de um funil cheio de fricções (preço, acesso, logística, adesão, continuidade, apoio ao autocuidado, etc.), ela começa a construir canais próprios para transpor o afunilamento. Se vai ou não dar certo, só o tempo dirá, mas o rugido é grande. Sustentado por automação artificial inteligente, o DTP ganha tração porque passa a operar como produto digital: triagem conversacional, navegação personalizada, orientação assíncrona, lembretes e “nudges” de adesão, suporte contínuo, e medição em tempo real (retenção, churn, NPS), tudo com iteração rápida e aprendizado direto na ponta. A manufatura farmacêutica vira plataforma comercial.

Um DTP (Direct-to-Patient) é quando a farmacêutica abdica de ser “apenas o fabricante do medicamento” e passa a montar uma estrada própria até o paciente. Pense nas terapias medicamentosas como um navio. Durante décadas, a indústria construiu essa embarcação e controlou o porto de saída. Deixou o resto para o mar: operadoras, médicos, varejo farmacêutico, atacadistas, burocracia, filas, regulação, políticas públicas, etc. O DTP nasce quando a indústria percebe que não basta construir navios; é preciso ocupar os oceanos…

Na prática, o DTP é um canal digital direto (site, app, WhatsApp, plataforma, etc.) que funciona como um “conector”: orienta, destrava cobertura, explica custo, organiza a compra, agiliza a entrega, lembra e alerta o paciente, acompanha a adesão e, no limite, sustenta a continuidade do tratamento (sabe-se lá que outros serviços ainda poderá oferecer). E aqui entra o impacto: com IA, o DTP é o contact-center que não dorme, um concierge que responde em segundos, um Agente Artificial que personaliza a rota, aprende com cada obstáculo, interage com o cuidador (ou com o médico) e refina a atenção. Em uma visão hiperbólica, o DTP pretende transformar o “medicamento” em um “serviço-contínuo”, com a manufatura farmacêutica mostrando que, no século XXI, quem controla a fricção controla a terapia.

O estudo “Pharma’s direct-to-patient era: Building beyond table stakes”, publicado em novembro de 2025 pela Rock Health, um dos principais radares de tendências globais em Saúde, mostra o estalo do DTP em todas as cadeias de saúde. Uma onda colossal de lançamentos, nascida, curiosamente, nos últimos dois anos (na esteira das IAs). O “LillyDirect” da Eli Lilly foi o primeiro a largar em janeiro de 2024 (plataforma digital que abrange telemedicina independente, busca por profissionais de saúde presenciais, entrega de medicamentos online, parceiros de gerenciamento de doenças e suporte para acessibilidade financeira). O PfizerForAll veio logo em agosto do mesmo ano (agendamento de consultas presenciais ou telemedicina no mesmo dia, agendamento de vacinação, entrega em domicílio de medicamentos com e sem receita, com descontos e suporte quando apropriado). Em 2025, emergiu o NovoCare”, da Novo Nordisk (trilhas DTP gerenciadas pelo fabricante, com preços transparentes para pagamento à vista e logística especializada para acesso às terapias Wegovy e Ozempic).

Na mesma direção seguiram a AstraZeneca, que lançou o AstraZeneca Direct; a Boehringer Ingelheim, que apresentou o Boehringer Ingelheim Access; a Amgen, com o AmgenNow e a Novartis ao inserir o protótipo de DTP. Além das modificações constantes nas plataformas (que se prestam a isso devido às facilidades de handling com as GenAIs), outros fatores devem se somar nos próximos meses/anos, como Expansão Terapêutica, Contratos a Termo com Preço Líquido (pressão dos empregadores nessa direção), Conformidade desde o Vzero (plataformas escaláveis seguindo regras de elegibilidade, uso de dados com consentimento e independência dos profissionais de saúde que estiverem integrados à interface do usuário).