A inteligência artificial já faz parte da agenda estratégica da saúde, mas sua adoção ainda depende de um passo anterior: preparar as instituições para usar a tecnologia com segurança, consistência e impacto real. Antes de escalar soluções, hospitais, operadoras e demais organizações do setor precisam olhar para a qualidade dos dados, a integração dos sistemas, a segurança da informação e a capacidade das equipes de trabalhar com novas ferramentas.
Esse foi o tema central do episódio doPodcast Hospitalar: Estúdio Saúde Business, gravado diretamente da Hospitalar 2026, que discutiu a maturidade digital das instituições brasileiras e os caminhos para que a IA deixe de ser apenas um tema de tendência e passe a apoiar, de fato, a operação e o cuidado em saúde. A conversa reuniu Marcos Sobral, diretor de tecnologia da Noxtec; Antônio Cavalcanti, Head de IA da 3Wings, empresa do grupo Noxtec; e Kleber Araujo, CMIO da MV.
IA depende da maturidade digital das instituições
Um dos principais pontos discutidos no episódio foi a diferença entre o entusiasmo em torno da inteligência artificial e a realidade tecnológica de boa parte das instituições de saúde no Brasil.
Na prática, o setor ainda convive com níveis muito distintos de maturidade. Há hospitais mais sofisticados, geralmente privados ou pertencentes a grandes redes, que já contam com infraestrutura, orçamento, sistemas integrados e equipes preparadas para testar e incorporar novas soluções. Há também instituições em estágio intermediário, com prontuário eletrônico implantado, mas ainda com parte da operação dependente de processos manuais. Em outra ponta, muitos hospitais, especialmente no SUS, ainda enfrentam limitações importantes de infraestrutura, governança de dados e informatização.
Essa diferença importa porque a IA não funciona isoladamente. Para que uma solução gere valor, é preciso que exista uma base anterior de dados organizados, sistemas confiáveis e processos minimamente estruturados. Sem isso, o risco é automatizar informações incompletas, inconsistentes ou pouco padronizadas.
Durante a conversa, os especialistas reforçaram que o desafio não é apenas escolher uma tecnologia, mas entender qual problema ela deve resolver. A inteligência artificial generativa ganhou força com os grandes modelos de linguagem, mas nem toda aplicação relevante na saúde passa por esse caminho. Soluções de otimização, deep learning, apoio ao diagnóstico, análise de prontuários, agendamento automatizado e regulação inteligente de OPME já mostram aplicações mais concretas em determinados contextos.
A mensagem central é que a IA precisa ser avaliada pelo resultado que entrega. Em um setor pressionado por custos, produtividade, segurança assistencial e eficiência operacional, a adoção da tecnologia deve estar conectada a retorno mensurável, redução de riscos e melhoria da jornada de pacientes e profissionais
Tecnologia não substitui julgamento humano
Embora o episódio destaque o potencial da IA, os executivos também reforçam que a tecnologia não elimina a necessidade de supervisão humana. Em aplicações como transcrição de consultas, geração de registros no prontuário eletrônico e produção de resumos clínicos, por exemplo, a IA pode reduzir tarefas administrativas e permitir que o profissional dedique mais atenção ao paciente.
Mas isso não significa delegar a decisão à máquina. O profissional continua responsável por revisar, corrigir e validar as informações geradas. A tecnologia pode apoiar a prática clínica, ampliar a capacidade de análise e reduzir fricções da rotina, mas não deve ser tratada como substituta do raciocínio profissional.
Esse ponto também vale para a gestão. A adoção da IA exige educação das equipes, alinhamento de expectativas e mudança cultural. Assim como ocorreu com o prontuário eletrônico, a incorporação da inteligência artificial depende de processos, treinamento e clareza sobre o papel da tecnologia dentro da operação.
Sem esse preparo, o risco é transformar a IA em mais uma camada de trabalho, e não em uma solução capaz de melhorar eficiência, segurança e experiência. A entrevista completa está disponível no canal do Portal Saúde Business no YouTube.