Por muitos anos, a tecnologia nos hospitais esteve concentrada na ponta assistencial: equipamentos médicos, engenharia clínica, exames, diagnósticos e recursos voltados diretamente ao cuidado do paciente. Essa frente segue avançando, agora impulsionada pela inteligência artificial. Mas, para Julio Vieira, CEO do HCor, o próximo salto da saúde brasileira depende de outra camada: a modernização da gestão hospitalar.
Em entrevista ao Podcast Hospitalar: Estúdio Saúde Business, gravado diretamente da Hospitalar 2026, o executivo afirmou que áreas administrativas, operacionais e de apoio ainda carregam uma defasagem tecnológica importante em relação à assistência. E é justamente nesse descompasso que está uma das principais oportunidades para hospitais que precisam ganhar eficiência sem abrir mão da qualidade.
Segundo Vieira, a lógica de gestão mudou. Até pouco tempo atrás, gargalos de atendimento, recepção, logística ou operação costumavam ser resolvidos com mais pessoas. Hoje, a pergunta vem antes: como automatizar, sistematizar e tornar o processo mais seguro com apoio da tecnologia?
“Até alguns anos atrás, tudo que a gente tinha que revisar de processo era gente. Tinha um problema na recepção, contratava mais gente. Tinha um problema na logística, contratava mais gente. Hoje, a lógica se inverteu”, afirmou o CEO.
A transformação digital saiu da TI e chegou à estratégia
No HCor, a inteligência artificial já aparece em diferentes frentes. Na assistência, a tecnologia é usada para apoiar a análise de exames de imagem e sinalizar possíveis achados críticos que exigem maior atenção médica. Na operação, uma das aplicações está na gestão de leitos, com cruzamento de dados sobre pacientes internados, agendas futuras, quadro clínico e tempo estimado de internação.
O ponto, para Vieira, não é substituir a decisão médica ou operacional, mas tornar a instituição mais rápida, segura e menos dependente de processos manuais. Isso muda também o papel da liderança hospitalar, que passa a precisar de mais domínio sobre dados, automação e leitura estratégica de informações.
A transformação, no entanto, não acontece apenas com a contratação de novas ferramentas. O executivo destacou que projetos mais avançados de inteligência artificial dependem de uma base estrutural, como organização de dados, integração de informações e construção de ambientes capazes de sustentar decisões futuras.
Essa discussão, segundo ele, é especialmente relevante em um setor pressionado por margens apertadas, custos crescentes e necessidade contínua de reinvestimento. A sustentabilidade hospitalar deixou de ser uma pauta restrita à área financeira e passou a envolver médicos, equipes assistenciais, operação, compras, protocolos e uso racional de recursos.
Infraestrutura também é decisão estratégica
Outro eixo da conversa foi a infraestrutura hospitalar. Para Vieira, engenharia clínica, manutenção, equipamentos, obras e sistemas prediais ainda são frequentemente percebidos como centros de custo. Mas essa visão, segundo ele, limita a capacidade dos hospitais de planejar crescimento, qualidade assistencial e posicionamento de longo prazo.
No HCor, o último ano marcou o maior investimento em Capex da história da instituição, com aportes voltados a expansão, novas áreas, equipamentos médicos e infraestrutura. Para o CEO, esse tipo de decisão só faz sentido quando está conectado ao planejamento estratégico da organização.
“Se você olha com uma cabeça operacional, vai achar que é custo. Se tira essa visão e olha para a estratégia, percebe que infraestrutura é o que suporta o crescimento”, disse.
A questão se torna ainda mais sensível para instituições com restrição orçamentária. Na avaliação de Vieira, hospitais menores devem evitar decisões por impulso e priorizar investimentos capazes de garantir segurança operacional, produtividade e redução de desperdícios. Antes de projetos disruptivos, o primeiro passo é estruturar processos básicos e proteger aquilo que impacta diretamente o paciente.
A sustentabilidade ambiental também entrou na agenda. O HCor possui certificação ISO 14001 e, segundo o executivo, realizou investimentos em sistema elétrico de potência, elevadores, geração própria de energia e gestão de resíduos. Para Vieira, o tema deixou de ser apenas reputacional e passou a integrar a estratégia de eficiência e responsabilidade das instituições de saúde.
Ao final da entrevista, o CEO defendeu que a atual geração de líderes hospitalares tem a responsabilidade de encontrar novos caminhos para tornar o setor mais eficiente, sustentável e preparado para o futuro.
A conversa completa com Julio Vieira, CEO do HCor, está disponível no canal do Portal Saúde Business no YouTube.