A Justiça Federal suspendeu os efeitos da Resolução CFM 2.382, que obrigava médicos a utilizarem a plataforma “Atesta CFM” para emissão, gestão e armazenamento de atestados médicos em um banco de dados centralizado pelo Conselho Federal de Medicina (CFM). A decisão foi baseada em uma liminar proferida pelo juiz Bruno Anderson Santos da Silva, que considerou que a medida extrapola o poder regulamentar do CFM e viola competências legislativas da União. 

Segundo o juiz, a resolução poderia gerar concentração de mercado, além de fragilizar a proteção de dados pessoais e de saúde dos pacientes. A liminar foi concedida após ação do Movimento Inovação Digital (MID), entidade que representa mais de 180 empresas de tecnologia. Com a suspensão, os médicos não precisam utilizar a plataforma até que haja uma decisão definitiva sobre a legalidade da norma. 

Impactos na privacidade e liberdade médica 

Segundo Ariel Uarian, Diretor de Políticas Públicas do MID, “a ação visa defender a liberdade e a autonomia dos médicos, além de assegurar a segurança e o sigilo dos dados dos pacientes. A transformação digital é a melhor alternativa para combater fraudes, mas é essencial promover um debate democrático com todos os impactados por essas medidas.”  

O MID solicitou a suspensão da norma, alegando sua ilegalidade, uma vez que a Lei 14.063/20 atribui ao Ministério da Saúde e à Anvisa a competência para regulamentar documentos de saúde. Além disso, também apontou a insegurança jurídica gerada em relação ao sigilo e à proteção dos dados dos pacientes. Em 2020, a entidade já havia apoiado a iniciativa do governo federal de implementar a plataforma gratuita Validar ITI, que permite a certificação digital de atestados assinados e verifica as informações do documento e do médico.   

Segundo Uarian, a Resolução do CFM foi elaborada de forma unilateral, sem diálogo com a sociedade, desconsiderando os impactos e implicações práticas para o sistema de saúde brasileiro e impondo uma burocracia obrigatória a todos os médicos. “Além das inseguranças jurídicas, nossa preocupação é que a medida imposta pelo CFM não seja a mais adequada ou razoável, considerando os riscos e impactos que ela acarreta,” afirma Uarian.   

Dificuldades e riscos na integração 

A entidade aponta dificuldades e riscos na integração de todos os sistemas de informação do SUS e de serviços privados com o CFM. “Essa centralização traz uma complexidade significativa, considerando os milhões de dados gerados diariamente, o que exige um sistema robusto e estável. Além disso, a medida cria problemas práticos no cotidiano médico. Para emitir um atestado em papel, o médico precisará utilizar blocos pré-impressos pela plataforma Atesta CFM e ainda terá que transcrever posteriormente os dados para o sistema. Sabemos que nosso sistema de saúde enfrenta diversas dificuldades que podem dificultar o acesso ao sistema do CFM, como falta de impressoras ou até mesmo acesso à internet.”