Nas últimas décadas, observamos um fenômeno que desafia a comunidade médica global: o crescimento dos casos do chamado câncer de início precoce, quando tumores cancerígenos são diagnosticados em pessoas com menos de 50 anos.
Nesse sentido, um estudo publicado no The British Medical Journal Oncology revela que a incidência destes casos aumentou 79% entre 1990 e 2019. No Brasil, o cenário é igualmente preocupante – a Sociedade Brasileira de Mastologia estima que 4 em cada 10 pacientes com câncer de mama tenham menos de 50 anos e cerca de 5% receberam o diagnóstico antes dos 35.
Esse crescimento, impulsionado por fatores como o consumo de ultraprocessados, obesidade, sedentarismo, tabagismo e alterações no microbioma intestinal, por sua vez, já fomenta uma mudança na forma como a ciência e, mais especificamente, a Medicina Diagnóstica enfrentam o câncer e outras doenças crônicas que afetam a população.
Medicina Diagnóstica avança na identificação precoce de tumores
Diante desse cenário, duas frentes tornaram-se centrais para reduzir a mortalidade e melhorar a qualidade de vida dos pacientes: o diagnóstico precoce e a personalização das terapias. Quando uma neoplasia é identificada nos estágios iniciais, as chances de cura podem chegar a 90%, além de permitir tratamentos menos agressivos e maior sobrevida com qualidade.
E a detecção precoce de doenças ganhou aliados decisivos a partir da evolução dos biomarcadores, indicadores mensuráveis que podem indicar a presença de processos patológicos e uma das principais conquistas da Medicina Diagnóstica nos últimos 50 anos.
Sejam moléculas proteicas, genes ou produtos do metabolismo gerados direta ou indiretamente pelo próprio tumor, eles funcionam como “assinaturas” que indicam a presença da doença.
Enquanto marcadores proteicos clássicos, como o PSA para o câncer de próstata e o CA 125 para o de ovário já são amplamente utilizados, a ciência contemporânea avança rapidamente no campo molecular.
Hoje, sabemos que testes genéticos permitem, por exemplo, o detalhamento minucioso do perfil de neoplasias, passo imprescindível para a chamada “Medicina Personalizada”. Esses testes permitem mapear o perfil molecular do tumor e direcionar o tratamento mais eficaz para cada paciente, evitando terapias ineficazes e reduzindo efeitos colaterais.
Além disso, alguns tipos de câncer, como os de mama e próstata, registraram avanços relevantes no diagnóstico e no acompanhamento da doença com o uso de marcadores como o CA 15-3 e o PSA.
Por outro lado, a identificação de biomarcadores mais sensíveis para tumores de pâncreas e estômago ainda representa um desafio importante, embora a revisão contínua de protocolos e o avanço das pesquisas tragam perspectivas promissoras para esses cenários.
Destacamos ainda que, dentro do terreno de combate às doenças crônicas, a Medicina Diagnóstica não se limita à descoberta de casos. Ela é essencial em toda a jornada do paciente, auxiliando na escolha da terapia, na avaliação da eficácia do tratamento e no monitoramento pós-cura.
Nesse sentido, a elevação de marcadores como o CA 125, para citar um exemplo, pode ocorrer meses antes de qualquer evidência clínica de que o câncer retornou, permitindo uma intervenção rápida e crucial.
Medicina personalizada transforma o cuidado oncológico
Paralelamente, o progresso na radioterapia de precisão, imunoterapia e cirurgias menos invasivas também têm transformado o prognóstico de pacientes jovens. A integração entre a excelência técnica e a humanização do cuidado é fundamental para acolher novos perfis de paciente. Muitas vezes, eles enfrentam tumores biologicamente mais agressivos e perfis moleculares distintos daqueles observados em idosos.
Conforme citamos, a correlação entre o momento do diagnóstico e a sobrevida é direta: os dados mostram que a progressão do tumor é significativamente mais lenta e as terapias muito mais eficazes nos Estágios I e II do câncer.
Por isso, a revisão constante de protocolos de biomarcadores e a adesão de pacientes a exames de rastreamento devem fazer parte da jornada de cuidados junto à população brasileira, sobretudo quando consideramos a perspectiva de que o país registre cerca de 781 mil novos casos de câncer anualmente até 2028, segundo INCA.
Outros pontos importantes são o autocuidado e a atenção a sinais como perda de peso sem motivo, fadiga persistente e alterações fisiológicas incomuns.
Com essa mentalidade, integrada ao fortalecimento da rede diagnóstica e a democratização do acesso às novas tecnologias de marcadores tumorais e testes genéticos, temos os pilares estratégicos para vencer uma das batalhas mais desafiadoras da medicina moderna.
*Alex Galoro é líder do Comitê Técnico de Análises Clínicas da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed).